Para Haroldo Augusto Filho, negociar com quem entende mais do assunto exige outra preparação

Por Eva Korenva
Haroldo Augusto Filho

Na compra de serviços técnicos, o fornecedor quase sempre sabe mais. Nesse contexto, Haroldo Augusto Filho, executivo da Fource Consultoria, com atuação em negociação empresarial e gestão de conflitos, destaca que essa assimetria de conhecimento é uma das fontes de desequilíbrio menos discutidas em negociações empresariais. Quem não entende o que compra tem dificuldade de saber por que está pagando.

Sistemas de tecnologia, projetos de engenharia, consultorias especializadas e serviços de manutenção industrial têm em comum a complexidade técnica. O comprador depende das explicações de quem vende para avaliar preço, prazo e escopo. Confira a seguir três formas de reduzir esse desequilíbrio sem precisar se tornar especialista no assunto.

Por que a assimetria técnica pesa tanto?

Em negociações comuns, as duas partes conseguem avaliar o que está em jogo. Na compra de serviços técnicos, apenas uma delas consegue. O fornecedor sabe quanto o trabalho realmente custa, quais etapas são indispensáveis e quais riscos estão embutidos no projeto. O comprador precisa confiar no que ouve. Economistas chamam esse tipo de situação de assimetria de informação.

A assimetria não significa má-fé. Muitas vezes, o comprador apenas aceita por falta de referência. O problema aparece quando o escopo cresce, os prazos se estendem e ninguém do lado contratante consegue dizer se aquilo era previsível. Em razão disso, Haroldo Augusto Filho nota que o desequilíbrio técnico vira desequilíbrio de poder ao longo do contrato.

Comprar o resultado, e não a técnica

O comprador não precisa entender como o sistema será programado, mas precisa saber exatamente o que ele deve fazer. Definir o contrato pelo resultado, com critérios de aceitação mensuráveis, devolve ao comprador a capacidade de avaliar a entrega. Paga-se por um sistema que processe mil pedidos por hora, e não por horas de programação.

Essa mudança altera a conversa sobre preço. Quando o fornecedor assume o risco técnico de entregar o resultado, ele tende a ser mais preciso nas estimativas, porque o erro passa a custar a ele. Contratos baseados em horas trabalhadas, ao contrário, transferem todo o risco ao comprador, que paga mais quanto maior for a dificuldade.

Haroldo Augusto Filho
Haroldo Augusto Filho

Trazer um especialista independente

Haroldo Augusto Filho sugere, em contratações de alto valor, contar com um especialista independente do lado comprador. Um engenheiro ou consultor sem vínculo com o fornecedor consegue avaliar se o escopo é razoável, se os prazos fazem sentido e se o preço está dentro do mercado. O custo dessa assessoria é pequeno diante do valor em jogo.

A simples presença desse especialista muda o comportamento do fornecedor. Explicações vagas passam a ser questionadas com perguntas técnicas, e estimativas infladas ficam mais difíceis de sustentar. Mesmo fornecedores honestos se beneficiam: discutir com alguém que entende o assunto evita mal-entendidos que, mais tarde, virariam disputa. O diálogo fica mais técnico e menos defensivo.

Comparar propostas pelo mesmo critério

Pedir várias propostas só funciona se elas puderem ser comparadas. Quando cada fornecedor descreve o serviço à sua maneira, com etapas e premissas diferentes, o comprador acaba escolhendo pelo preço total sem saber o que está incluído em cada um. Uma especificação comum, enviada a todos, permite comparar itens equivalentes.

As diferenças entre propostas também são fonte de informação. Se um fornecedor prevê três meses para uma etapa que outro estima em três semanas, a pergunta sobre o motivo revela premissas que nenhum dos dois havia explicitado. Nessa comparação, Haroldo Augusto Filho pondera que a proposta mais barata merece tanta investigação quanto a mais cara, porque também pode esconder lacunas.

Conhecimento também se negocia

Nenhuma dessas práticas exige que o comprador domine a técnica do fornecedor. Elas exigem algo diferente: clareza sobre o resultado esperado, disposição para buscar apoio quando o valor justifica e disciplina para comparar propostas em bases iguais. São competências de negociação, e não de engenharia. Qualquer empresa pode desenvolvê-las.

A assimetria técnica nunca desaparece por completo, e nem precisa. O objetivo é reduzi-la o suficiente para que a relação com o fornecedor seja de parceria, e não de dependência. Quando o comprador sabe o que quer e como verificar se recebeu, a conversa deixa de ser uma aposta e passa a ser um acordo entre partes que se entendem.

 

Compartilhe esse Artigo