Qual a diferença entre disciplina e autoritarismo, segundo a psicanálise? Taiza Tosatt Eleoterio esclarece

Por Eva Korenva
Taiza Tosatt Eleoterio

Segundo Taiza Tosatt Eleoterio, especialista em saúde mental e relações familiares, disciplina e autoritarismo, embora frequentemente confundidos na educação dos filhos, partem de lugares psíquicos bastante diferentes: uma busca orientar e proteger a criança dentro de limites claros, enquanto o outro busca, muitas vezes sem que os próprios pais percebam, controlar e submeter. Na prática, entender essa diferença pode transformar a forma como uma família lida com regras e limites no dia a dia, sem abrir mão da firmeza necessária para que a criança se desenvolva com segurança.

O que caracteriza a disciplina em uma criação saudável?

A disciplina saudável envolve estabelecer limites claros e consistentes, explicados de forma acessível à idade da criança, sempre acompanhados de acolhimento emocional, mesmo diante de um comportamento inadequado. Ela ensina consequências previsíveis para as escolhas feitas, sem recorrer ao medo ou à humilhação como ferramenta de controle. Esse modelo também permite que a criança compreenda o motivo por trás de cada regra, em vez de apenas obedecer por medo de uma punição desproporcional.

Na psicanálise familiar, entende-se que os primeiros modelos de autoridade vivenciados pela criança moldam, de forma duradoura, sua relação com regras e figuras de poder ao longo da vida. A disciplina eficaz, aponta Taiza Tosatt Eleoterio, preserva o vínculo afetivo entre pais e filhos, já que a criança compreende que o limite existe por cuidado, e não como uma forma de punição desproporcional ao que foi feito. 

O que caracteriza o autoritarismo dentro do ambiente familiar?

Já o autoritarismo se apoia no medo e na obediência incondicional, muitas vezes acompanhado de punições desproporcionais, humilhações públicas ou ameaças que ultrapassam o necessário para corrigir um comportamento específico. Nesse modelo, a regra importa mais do que o entendimento da criança sobre por que ela existe, e a obediência é medida pelo silêncio, não pela compreensão real do que está sendo pedido.

Como ressalta Taiza Tosatt Eleoterio, o autoritarismo costuma gerar obediência aparente no curto prazo, mas às custas de um vínculo de confiança que fica cada vez mais fragilizado ao longo do tempo, especialmente quando a criança começa a associar os pais apenas ao medo, e não à segurança que a relação deveria oferecer.

Por que essa confusão é tão comum entre os pais?

Muitos pais aprenderam, dentro de suas próprias famílias de origem, que educar é sinônimo de impor obediência através do medo, o que torna difícil reconhecer, na vida adulta, a diferença entre firmeza saudável e controle excessivo. Repetir esse padrão, sem questioná-lo, costuma parecer a única forma “que funciona” de criar filhos, especialmente quando não existiu, na própria infância, nenhum outro modelo de referência para comparação.

Taiza Tosatt Eleoterio destaca que questionar esse padrão não significa julgar a própria criação recebida, mas sim reconhecer, com honestidade, o que pode ser feito de forma diferente com a geração atual, sem repetir automaticamente o que foi vivido.

Como identificar sinais de autoritarismo na própria forma de educar?

Perguntar-se se as regras impostas em casa são explicadas ou apenas exigidas, se o erro é tratado como oportunidade de aprendizado ou como motivo de punição severa, e se existe espaço para a criança expressar discordância sem medo de represália, ajuda a identificar esse padrão. Observar a própria reação emocional diante da desobediência também revela bastante sobre isso, já que uma reação desproporcional costuma indicar que algo além do comportamento pontual da criança está sendo ativado naquele momento.

Taiza Tosatt Eleoterio frisa que perceber esses sinais não é motivo para culpa excessiva, mas um convite genuíno à mudança, já que padrões educativos podem ser revistos e ajustados em qualquer momento da criação dos filhos.

Os efeitos de cada modelo na vida adulta

Crianças criadas sob disciplina saudável tendem a desenvolver autonomia, capacidade de tomar decisões e uma relação mais equilibrada com regras e limites ao longo da vida. Já crianças criadas sob autoritarismo costumam desenvolver dificuldade em confiar na própria capacidade de julgamento, seja obedecendo excessivamente a figuras de autoridade, seja rebelando-se de forma desproporcional contra qualquer regra, dois extremos que, no fundo, nascem da mesma dificuldade de confiar no próprio critério.

Taiza Tosatt Eleoterio situa esses efeitos como parte de um padrão que se estende muito além da infância, moldando também como essa pessoa lida com autoridade e limites em relacionamentos e ambientes profissionais na vida adulta.

Como caminhar em direção a uma disciplina mais saudável?

Substituir punições desproporcionais por consequências lógicas e explicadas, praticar a escuta mesmo diante de comportamentos inadequados e buscar entender o que motivou determinada atitude antes de reagir são passos concretos nessa direção. Esse processo exige paciência, já que padrões antigos não se desfazem de uma vez só, e pequenos deslizes ao longo do caminho não anulam o esforço de mudança que está sendo feito.

Dessa forma, rever a própria forma de educar, ainda que de maneira gradual, fortalece o vínculo familiar e ensina aos filhos que limites e afeto podem, e devem, caminhar juntos dentro de uma mesma casa, construindo uma relação em que a autoridade dos pais não precisa se apoiar no medo para ser respeitada.

 

Compartilhe esse Artigo