A tragédia da pandemia segue como se não tivesse fim. Com ela, seguem história paralelas igualmente trágicas em um cenário de amargura cada vez mais acentuado. Essa marca está no rosto das pessoas, como uma cicatriz feita a ferro. O coronavírus no Brasil já passou de 300 mil mortos e milhares de histórias que deverão constar em livros e documentários de uma época. Marcas de dor e desespero para sempre. Se tivéssemos agido certo e comprado as vacinas em agosto de 2020, como nos foram oferecidas, hoje teríamos mais de 100 milhões de pessoas vacinadas. Mas o Brasil se negou, como se estivéssemos acima do bem e do mal. Foi uma das primeiras demonstrações daquela conduta desprezível diante de uma doença que, já naquela época, assustava o mundo. Na verdade, conduta que representou uma violência. Violência não é somente pegar um revólver e dar um tiro em alguém. Muitas vezes é sutil, essa que vemos e sentimos num comportamento doentio. Pior de tudo é que muitos aplaudiram e ainda aplaudem esse desprezo à vida, essa brutalidade de alguém incapaz de dar ao país uma palavra de conforto. Isso nem pensar. Infelizmente, a autoridade máxima do país gosta de viver nessa ciranda de insultos e ofensas às pessoas. Tudo indica que essa conduta está mudando. Mas está mudando por pressão de uma população aflita. Chegou-se a um ponto em que persistir nessa política nos levaria a ser um imenso cemitério. Parece que esse comportamento vai mudar. Parece. Não se tem certeza ainda.

Esse descaso com a doença, por exemplo, nos leva à cidade de Magé, no Rio de Janeiro, onde os filhos tiveram que, eles mesmos, cavar a terra para sepultar a mãe, vítima da Covid-19, porque não havia coveiro no cemitério. Trata-se de apenas um caso, um único caso, para explicar as histórias que acontecem junto com a pandemia, ilustrando bem a pobreza brasileira. A idosa morreu na quinta-feira,18, na hora do almoço. E, no caso de morte por Covid, o procedimento é o seguinte: o corpo é colocado imediatamente no caixão, envolvido em plástico e segue para o cemitério sem qualquer cerimônia. Quando a mãe faleceu, os quatro filhos estavam no hospital. Eles pegaram o caixão e seguiram para o Cemitério Municipal de Vila Esperança, na Baixada Fluminense. Constataram, então, que não havia nenhuma cova aberta. Um dos irmãos, uma moça, foi então reclamar na administração do cemitério, mas não encontrou ninguém. Ela ligou para a Prefeitura de Magé e disse que o caixão de sua mãe estava lá, no chão, esperando sepultamento, mas não havia nenhum coveiro nem ninguém na administração do cemitério. Ao telefone, gritou que sua mãe estava sendo tratada como um lixo, sem nenhum respeito, como se fosse nada. Então, os irmãos começaram a cavar a cova para enterrar a mãe.

A Prefeitura de Magé divulgou uma nota explicando que o diretor do cemitério havia liberado todos os coveiros para o almoço. A nota também informou que o diretor e toda a equipe foram exonerados, afirmando ser impensável que, neste momento de dor, uma família que perdeu a mãe tenha que passar por essa tristeza. O vídeo do enterro da senhora foi divulgado pelo site G1. É chocante. Gente pobre, sem nada. E tudo termina assim, num comunicado da prefeitura. É assim para toda a grande maioria dos mais de 300 mil brasileiros mortos pela doença. Tudo termina numa nota. Enterrada a mãe, os quatro irmãos foram para casa, um lugar qualquer em qualquer lugar. Coisas assim acontecem num país que não tem alma. Um país vazio e medíocre, a começar pelos seus governantes, aqueles que são contra, por exemplo, o isolamento das pessoas para que o vírus não se espalhe mais. Gente ausente de qualquer valor de humanidade, capaz de entrar no STF com ação contra os governadores que estão impondo restrições para evitar mais morte. Isto aqui é o Brasil. Não precisa dizer mais nada.