No início da pandemia, acreditava-se que o contato com superfícies infectadas seria uma forma importante de transmissão do coronavírus. Em laboratório, a sobrevivência do vírus em diferentes superfícies pode chegar a dias. Com base nesses primeiros resultados, estabelecimentos de todo o tipo passaram a oferecer o álcool em gel, anunciar medidas de limpeza e desinfecção mais frequentes, exigir máscaras, colar adesivos no chão para marcar a distância social recomendada e, às vezes, até tirar a temperatura de todos na entrada. Tudo para proteger e tranquilizar os frequentadores. Desde então, cientistas vêm demonstrando que o risco de transmissão da Covid-19 por superfícies é muito menor do que o de transmissão pelo ar. Portanto, medidas que previnem a transmissão aérea do vírus, como boa ventilação, uso de máscaras e distanciamento social, são mais importantes do que as que previnem o contágio por contato, como limpeza das mãos e das superfícies.

Ao longo dos últimos meses, os mais céticos chegaram a chamar as medidas contra a transmissão por contato de “teatro da higiene”, por analogia com o “teatro da segurança”, medidas que não são efetivas mas fazem as pessoas se sentirem mais seguras. O exemplo clássico são as draconianas regras de segurança no transporte aéreo adotadas desde o 11 de Setembro, que não funcionam — em testes, deixam passar itens proibidos e até armas. Sua verdadeira função é demonstrar que a segurança é levada a sério. Para as medidas de higiene propriamente ditas, a comparação é um pouco injusta. O “teatro” dos aeroportos causa desde inconvenientes até problemas extremamente sérios (filas, estresse, voos perdidos, assédio sistemático a grupos minoritários considerados “suspeitos”) e traz pouco ou nenhum resultado. Barrando graves exageros, lavar as mãos, usar álcool em gel e desinfetar superfícies não faz mal nenhum, fora a trabalheira e talvez um certo ressecamento da pele. E dá resultado, prevenindo diversas doenças virais e bacterianas, inclusive a Covid-19. (Convenhamos, ninguém precisa ler uma coluna, ou aturar mais de um ano de pandemia, para aprender que um ambiente mais limpo é mais saudável.) Mas os efeitos são relativamente pequenos.

A tentação de usar a limpeza de superfícies como “atalho mental” para avaliar a segurança de um ambiente é grande, porque a limpeza é tão mais fácil de observar do que, por exemplo, a qualidade do ar. Lavar as mãos ou usar álcool em gel nos tranquiliza porque está sob nosso controle, quando não podemos controlar quantas outras pessoas vão entrar no ambiente, se vão manter a distância ou se vão usar máscaras. Mas não devemos confundir o mais visível, controlável e acessível com o mais importante. Se estas medidas de higiene de superfícies, altamente visíveis e constantemente alardeadas, nos tranquilizarem a ponto de negligenciarmos o risco muito maior da transmissão aérea da Covid-19, então elas se tornam, realmente, um “teatro” que transmite uma falsa sensação de segurança. Nos convencem de que o vírus já está sendo levado a sério naquele ambiente, e, portanto, nós podemos relaxar — mesmo estando em um lugar fechado, pouco ventilado, aglomerado, com pessoas sem máscara (ou as usando daquele jeito precário, cobrindo só o queixo ou deixando o nariz de fora). Convencem os gestores, públicos e privados, a investir recursos em limpeza profunda frequente em vez de filtragem de ar ou distribuição de máscaras. Viram uma distração. Talvez seja menos um teatro e mais um truque de mágica, que nos despista, tira nossa atenção do que é essencial.