O crescimento de 1,2% do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre, na comparação com os três últimos meses de 2020, veio acima das projeções do mercado financeiro, que indicavam avanço abaixo de 1%, e renovou a expectativa de recuperação da economia brasileira em 2021. Pouco tempo depois de o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgar os números, o Goldman Sachs revisou a estimativa de crescimento do PIB para 5,5%, ante previsão de 4,6%. “Esperamos que a economia recupere visivelmente nos próximos trimestres em combinação com novos progressos (graduais) na vacinação contra a Covid, reabertura gradual da economia, estímulo fiscal renovado, recuperando a confiança dos consumidores e das empresas, e condições favoráveis de comércio e o contexto externo em geral”, informou o banco. O movimento segue a onda de revisões para o desempenho da economia neste ano depois que uma série de indicadores apontar a resiliência das atividades a despeito do recrudescimento da pandemia do novo coronavírus.

Dados do Boletim Focus divulgados nesta segunda-feira, 31, mostram que o mercado financeiro espera alta de 3,96% do PIB em 2021, na sexta revisão consecutiva para cima. O otimismo é sustentado pela menor aderência da população às medidas de isolamento social, seja por negligência ou por necessidade, além do reaquecimento das economias globais. A mudança de expectativas é traduzida em números. O Índice de Confiança Empresarial (ICE) medido pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV/Ibre) atingiu 97,7 pontos em maio, o melhor nível desde março de 2014. Já o Índice de Confiança da Indústria (ICI) e o Índice de Confiança da Construção (ICST) registraram os primeiros resultados positivos em 2021. “Os dados mostram que diversos agentes econômicos, consumidores, empresários, indústria e varejo estão com uma perspectiva melhor quanto ao cenário futuro, o que gera um entusiasmo para as projeções do segundo semestre”, afirma Camila Abdelmalack, economista-chefe da Veedha Investimentos.

A confirmação das previsões, no entanto, está ancorada no ritmo e abrangência da imunização da população brasileira contra o novo coronavírus. A prestação de serviços, responsável por 73% do PIB e o mais impactado pelas medidas de isolamento social, registrou avanço de 0,4% no primeiro trimestre, mesmo que as restrições tenham sido impostas apenas no fim de fevereiro. “Além de ter a maior participação do PIB, o setor de serviços emprega muita gente, então é importante que haja uma imunização muito forte para essa retomada”, afirma Cláudio Considera, pesquisador associado do FGV/Ibre e responsável pelo Monitor do PIB. A imunização também foi destaque em um relatório da XP Investimentos. “As estatísticas relacionadas à pandemia publicadas recentemente aumentaram as preocupações acerca de outro recrudescimento agudo da crise sanitária do país (principalmente no que diz respeito à disseminação de uma nova variante do coronavírus e ao ritmo errático de imunização da população contra a doença)”, afirmou o economista Rodolfo Margato. “Dito isso, mantemos a avaliação de que a campanha nacional de vacinação contra a Covid-19 ganhará tração nas próximas semanas, evitando retrocessos (ao menos generalizados) no processo de reabertura econômica em curso.”

Além da imunização, analistas também apontam a necessidade de o Brasil resolver velhos problemas estruturais para ganhar tração em um crescimento sustentável. Para Nicola Tingas, economista-chefe da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimentos (Acrefi), a resolução de entraves conjunturais, como o aprimoramento do sistema de educação, modernização da produção, além do compromisso do governo federal em manter as contas públicas sob controle, são fundamentais para voltar ao trilho do desenvolvimento sustentável. “É preciso melhorar o capital humano para que o país tenha mais oportunidades. Estamos passando por uma fuga de cérebros, e isso é o mesmo que a fuga de um PIB em potencial”, afirma.