Um ano após o início da pandemia no Brasil, mesmo com muitos estudos ainda pouco se sabe sobre a Covid-19. Porém, é consenso entre os especialistas que o coronavírus provoca uma doença sistêmica. Ou seja, ele não afeta apenas os pulmões — mas o corpo como um todo. Órgãos como coração e rim podem ficar com sequelas — além dos sistemas nervoso central, hematológico, imunológico e gastrointestinal. “Esse vírus tem capacidade de alterar vários sistemas do organismo”, avalia a infectologista do Hospital Beneficência Portuguesa Lina Paola. Depois do contágio e da recuperação, ainda que o quadro tenha sido leve, é importante procurar especialistas para realizar um check-up e ter certeza de que está tudo bem — principalmente se restarem ou aparecerem sinais que podem estar ligados à doença. Até porque estudos indicaram que a Covid-19 é capaz de deixar mais de 50 sintomas a longo prazo em cerca de 80% dos infectados.

Entre os principais, estão: fadiga, dor de cabeça, distúrbio de atenção, queda de cabelo, problemas digestivos, risco de trombose, diarreia e vômito. “Nos casos de pacientes assintomáticos, não vemos com frequência sintomas pós Covid-19. Mas pacientes que tiveram quadros leves, moderados e graves, sim. Esses que tiveram sintomas são os que mais precisam de acompanhamento médico. Se ele acha que algum sinal está relacionado, deve procurar atendimento para que exames específicos sejam solicitados. Mas, caso não manifeste outros sintomas, a gente não recomenda, a princípio, que faça acompanhamento porque não teria o que procurar”, completa a infectologista. O ideal é procurar um especialista após, pelo menos, 21 dias da doença. Esse tempo é necessário para a recuperação completa e também para que seja possível identificar os eventuais sinais.

E agora, qual médico procurar?

De acordo com Lina Paola, o médico a ser procurado depende dos sintomas apresentados. Se o que persistiu foi a falta de olfato e paladar, o médico mais indicado é o otorrinolaringologista, por exemplo. No caso de desconfortos abdominais, um gastroenterologista. Se foi a dor de cabeça, um neurologista. Porém, se os sinais forem muito graves, é mais aconselhável procurar o pronto-socorro. No sistema público de saúde, o ideal é ir até a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) mais próxima. Entre os sinais mais alarmantes, estão: dor de cabeça, vômito, dor no peito, desmaio, dor abdominal intensa, febre, falta de ar e dor torácica. No caso de sintomas persistentes, ou seja, que não passam com o uso de medicamentos, o caminho é procurar o especialista. “Já existe uma doença, a Covid-19. O trabalho a ser feito é confirmar a sequela, determinar o tratamento específico e se precisa de acompanhamento”, completa a infectologista. Os exames solicitados vão desde o hemograma completo, tomografia do tórax e abdômen, e até os mais específicos de cada especialidade.

Estou imune?

Um ponto importante destacado pela infectologista do BP é que, principalmente quem já teve o diagnóstico confirmado pelo teste RT-PCR, não é necessário fazer o exame de sorologia para saber se está imune. Ela explica que todas as pessoas que contraem uma doença infecciosa produzem o IgM e o IgG, que são anticorpos de memória. “Na Covid-19, por ser uma infecção respiratória, assim como a gripe, o anticorpo só vai proteger por cerca de seis meses. Não é preciso realizar o exame, neste caso é um desperdício de recurso. Não existe IgM e IgG que persista para sempre.” A profissional destaca que esse exame é importante, principalmente, para realizar diagnóstico quando uma pessoa teve todos os sintomas, mas o PCR deu negativo. “Sempre enfrentamos epidemias e nunca fomos atrás desses exames. Além disso, tem outras cepas e as variantes circulando. É uma coisa que vai gastar paciência, tempo, dinheiro do paciente e não acrescenta em nada neste caso.” Mesmo após a infecção, o recomendado é que a pessoa mantenha o isolamento e o distanciamento social na medida do possível e também o uso de máscaras — de preferência no modelo N95 ou PFF2, que promovem uma vedação mais eficiente do que as máscaras de pano ou cirúrgicas.