Eu, felizmente, até a presente data, nunca vivi nenhuma guerra, muito por ter nascido num país bonito e abençoado por natureza. Contudo, acredito realmente que estamos em uma, onde os privilegiados conseguem privilégios que ofuscam o medo, e os demais sentem mais medo. Não sou e nem tenho convívio com a área da saúde, mas ali está o campo de batalha, e talvez eles tenham mais noção (e, também, viés) do tamanho da guerra e da situação terrível que estamos enfrentando.  Ao que me cabe, nas consequências econômicas que temos e teremos desse período, a partir de ‘achômetros’ e linhas rabiscadas, penso que o Brasil está mal, e quando tudo isso acabar, sairá ainda mais em frangalhos. Ora, sempre há o vencedor, o que lucra a despeito do resultado, o que ganha com a taxa de câmbio mais alta; e desta visão não precisamos agora. O que queremos saber é o resultado desta guerra. Mas se nem o mês de março acaba, a quarentena se arrasta.

Indiscutível a necessidade de quarentena quando se há mais de 2 mil mortes ao dia e mais de 80 mil infectados ao dia – acho que essa discussão estava aberta e válida um ano atrás. Mas também é indiscutível os danos na já precária educação do país e na economia. Dessa forma, a discussão desta coluna nesta semana não se trata do patamar da taxa de câmbio, ou se o BC fez certo ou não em subir a taxa de juros (que a meu ver, acertou bonito). A reflexão desta semana é sobre os efeitos de longo prazo dessa guerra na sociedade brasileira. Do PIB brasileiro, 73% refere-se a serviços, e mais especificamente, 16,2% a “outros serviços” que não seja comércio, financeiros, transporte, aluguéis e administração publica. E é essa parcela que mais sofre quando se há restrição de mobilidade. O PIB brasileiro recuou 4,1% em 2020, mas o PIB de outros serviços despencou 12%. E nessa fatia, meus colegas, tem muito emprego (sobretudo informal), tem muita família que não tem o privilégio de trabalhar em casa, e de ter hospital privado à disposição. A recomposição dessa fatia do PIB será lenta, e quanto mais se arrastar esse “abre-não-abre”, mais esses serão afetados.  

A educação, no meu ponto de vista, é o lado mais fraco e mais afetado dessa situação. O Brasil optou por deixar as escolas fechadas por tempo demais, aumentado a evasão escolar e piorando ainda mais a distância entre o Brasil e outros países mais desenvolvidos. No período pré-pandemia, o Brasil já estava entre os piores países no ranking da OCDE de educação – 60ª posição de 76 países – imaginem como sairemos dessa crise com as escolas fechadas pelo segundo ano consecutivo? Ou vocês acreditam que todas as famílias brasileiras dispõem de tablet e computador com internet para todos os jovens de sua casa? E mais um outro ponto de reflexão é como deixaremos para as próximas gerações a dívida fiscal do país. As dívidas que essa pandemia deixará serão pouco palatáveis, e quem pagará eventualmente essa conta são os mesmos jovens que estão sem educação devida hoje. 

Por isso, concordo muito com o que Mario Draghi, ex-presidente do Banco Central Europeu, disse no ano passado sobre a pandemia na Europa, que os gastos públicos também devem refletir as mudanças de preferências da sociedade, incluindo em relação à proteção ambiental, cuidados de saúde e digitalização, uma vez que o trabalho remoto deve ganhar destaque. Porém, aqui no Brasil, não conseguimos sequer evoluir para a discussão dos gastos do ano corrente – o Orçamento de 2021 está previsto para ser votado esta semana, com quatro meses de atraso. Em resumo, além da triste e calamitosa situação que esse vírus impôs ao mundo, o Brasil terá consequências a longo prazo pela inaptidão político-social dos nossos governantes, pela falta de coerência e cooperação em mais de 365 dias de pandemia. O Plano Marshal (de reconstrução da Europa no pós-Segunda Guerra Mundial) durou cerca de 3 anos. Quanto tempo precisaremos no Brasil? E com qual custo?