Com regras mais duras, a fase emergencial do Plano São Paulo, iniciada em 15 de março nos 645 municípios do Estado, trouxe mudanças no enfrentamento à pandemia de Covid-19 — e resultados. Dados do governo paulista divulgados nesta sexta-feira, 9, apontam redução de 17,7% nas internações em relação à semana epidemiológica anterior e diminuição da taxa de ocupação das Unidades de Terapia Intensiva, que passou de 90% para 87,2% na Grande São Paulo, e de 88,4% para 88,3% no Estado. Com base nisso, o governo anunciou nesta sexta que o Estado voltará para a fase vermelha do Plano São Paulo até o dia 18 de abril, o que representa um relaxamento nas medidas. No entanto, para profissionais da saúde, o recuo ainda é considerado lento comparado ao avanço da doença e a reabertura parcial das atividades pode levar a um cenário ainda mais dramático da pandemia.

O Hospital Sírio-Libânes registrou queda na procura por internações pela Covid-19 nas últimas duas semanas. O gerente de práticas médicas da instituição, Felipe Duarte, relata cenário “mais confortável” para atendimento dos pacientes, mas alerta que “ainda não é hora de relaxarmos”. Atualmente, o hospital trabalha com média de 88% de ocupação dos leitos hospitalares, o que inclui “leitos Covid” e leitos “não-Covid”. No final de fevereiro, a ocupação era de quase 100%. Considerando este cenário de contínua pressão ao sistema de saúde, assim como a relação entre o comportamento da população e o avanço da doença, Duarte acredita que as restrições deveriam ser mantidas no Estado. “Apertar economicamente é muito difícil, mas as perdas são muito grandes, são muitas vidas. Esse esforço, ainda que seja muito difícil, é preciso manter. Tem que ter um equilíbrio, ainda não é hora de sair, entendendo a nossa mortalidade atual”, diz, relembrando os recordes de mortes registrados em São Paulo durante o período restritivo.

O médico afirma também que ainda é precipitado mensurar a eficácia das medidas restritivas da fase emergencial para o controle da Covid-19. Para ele, o sucesso das restrições, bem como adesão ou não da população ao isolamento social, será comprovado ao longo próximos dias. “Se elas cumpriram [o isolamento], provavelmente a tendência de queda se mantém. Se não houve esse comportamento, é possível que daqui a uma semana ou 15 dias a gente observe um repique de pacientes. Nunca é imediato, você nunca pode falar que a medida foi eficaz uma semana depois. A gente precisa respeitar a história natural da doença”, alerta.

Coordenador da unidade de terapia intensiva do Hospital Beneficência Portuguesa, em São Paulo, André Gasparoto diz que o afrouxamento da fase emergencial pode “colapsar o sistema mais do que já está”. “Ainda não é o momento [da reabertura]. Os hospitais, as estruturas hospitalares de terapia intensiva, a falta de médicos preparados, assim como equipe multidisciplinar, enfermagem e fisioterapia, estão na carga máxima. Não temos mais especialistas, então é uma situação bem dramática. A tendência é aumentar e colapsar o sistema mais ainda”, explica. Segundo ele, o iminente colapso da saúde, tão temido e falado pelos especialistas, significa, em outras palavras, a “falta da possibilidade do paciente ser atendido e receber uma assistência adequada”, situação que vai muito além das vagas nas UTIs. “Os pacientes precisam de leitos, de oxigênio, muitos deles vão precisar ser intubados, vão precisar de sedativos. Esse é o colapso”, afirma, lembrando que a falta dos medicamentos e insumos hospitalares também contribui para o aumento das mortes em São Paulo e em outras regiões do país.

Embora reconheça diminuição na procura por hospitalizações, Gasparoto alerta que o hospital, assim como outras unidades de saúde do Estado, continua trabalhando, quase que diariamente, com ocupação máxima dos leitos, cenário que pode se agravar ainda mais nas próximas semanas. “Temos relatos de vários colegas [de outros hospitais] de pacientes que morreram por falta de ventilador, mesmo na capital paulista. Pacientes que morreram por falta de UTI. Então o cenário ainda é bem dramático por vários fatores”, afirma, ressaltando que a situação só deve normalizar com o avanço da vacinação contra a Covid-19. “Iremos estabilizar a pandemia, sair dessa situação crítica quando tivermos em torno de 50%  a 70% da população vacinada. É muito difícil. A tendência é um sobe e desce, você entra na fase emergencial, em 14 ou 21 dias colhe alguns frutos, aumenta o número de leitos disponíveis, daí afrouxa as restrições e novamente aumenta número de contaminados.”