“Teremos o março mais triste de nossas vidas”. A frase sobre a Covid-19 no Brasil faz parte de uma entrevista à imprensa internacional concedida pela pneumologista Margareth Dolcolmo, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), respeitada mundialmente. São palavras que dizem tudo, absolutamente tudo, para um povo que implora por uma vacina que, no Brasil, encontrou uma barreira quase intransponível. Mas diga-se: será assim enquanto o povo continuar se portando com um cordeiro pronto para o sacrifício. É angustiante escrever coisas com essa. Uma angústia que, infelizmente, aumenta a cada dia, pelo o que acontece nesta terra, um misto de descaso e inconsequência declarada diante do coronavírus, que assusta o mundo e que, no país, tomou rumos irresponsáveis, pois tudo aqui se transformou numa questão política e em crenças pessoais nada religiosas, mas de ignorância mesmo.

Atualmente, o Brasil alarma o mundo, tornou-se a entrada para novas variantes do coronavírus. É um cenário de medo e horror diante de tantas mortes e infectados. E também pela falta de leitos, o que faz com que hospitais não consigam mais dar atendimento aos doentes. É o que disseram cientistas  aos jornais “New York Times” e “The Guardian” em longas reportagens sobre o comportamento do Brasil durante a crise da Covid-19, tratada com desprezo pelo governo, criando um quadro de guerra em que o vírus parece não ter enfrentamento. As reportagens foram publicadas nos dois mais influentes jornais do mundo nesta quarta-feira, 3. Os especialistas ouvidos alertaram que o Brasil se tornou uma ameaça global. Miguel Nicolelis, neurocientista da Universidade de Duke, nos Estados Unidos, pediu, em sua entrevista ao britânico “The Guardian”, que a comunidade internacional se manifeste sobre o que está ocorrendo no Brasil e cobrou o governo brasileiro por sua conduta diante do avanço da doença, como não ocorreu em nenhum país do mundo.

Nicolelis fez parte da coordenação do Comitê Científico do Consórcio Nordeste para a Covid-19 no Brasil e diz que conhece bem o que está ocorrendo. Ele assinala que nada adianta conter a doença na Europa e nos Estados Unidos se o maior territória da América do Sul continua a tratando com descaso e, até mesmo, desacreditando a própria vacinação, deixando a população sem saber como agir ou pensar. Observa que o cenário assustador que se vê agora começou na cidade de Manaus, no Amazonas, onde as pessoas morriam asfixiadas por falta de oxigênio, aos olhos de um governo distante do problema que se agravava a cada dia —  e só teve alguns atendimento depois que a tragédia amazonense virou assunto internacional. Mesmo assim, não se sabe ao certo até agora qual foi o papel do Ministério da Saúde.

Já Margareth Dalcolmo, da Fiocruz, disse ao “New York Times” que o Brasil fracassou em montar uma campanha de vacinação eficiente, o que levou o país ao cenário lamentável que se vê atualmente. Também falou ao diário americano a pesquisadora de doenças infecciosas da Universidade de São Paulo Ester Sabino. Para ela, os outros países precisam prestar atenção ao que vem ocorrendo no Brasil. Ela observa que nada adiantará a qualquer país vacinar toda sua população se em outra parte do mundo aparecer uma nova variante. Por seu lado, Miguel Nicolelis destaca que este cenário atual no Brasil era esperado como resultado do tratamento que o país dá ao distanciamento social — uma sabotagem — , além de incentivar tratamentos com medicamentos comprovadamente ineficazes, chegando, ainda, a menosprezar até agressivamente o uso da máscara como proteção ao vírus. O neurocientista diz com todas as letras que hoje o Brasil é um risco para o mundo. 

O “Times” adianta que o Brasil está lutando contra uma nova variante do vírus que inicialmente afetou o Amazonas. O jornal ressalta a limitação de recursos para a realização de testes e estudos no país. Exemplifica informando que os Estados Unidos fizeram testes genéticos em 1 a cada 200 confirmados, enquanto o Brasil realizou apenas um exame para cada grupo de 3.000 notificações. Em entrevista à BBC Brasil, Margareth Dalcolmo, do Rio de Janeiro, afirmou que o Brasil vive um momento muito grave da pandemia. Assinala que isso não surpreende, já que as medidas tomadas no combate à doença foram sempre controversas e ineficientes. A única solução possível é a vacinação em massa. A pneumologista observa que, para completar, não existe no país um comportamento de solidariedade, não só dos cidadãos, mas também das autoridades políticas. Não existe uma consciência cívica diante da doença. Margareth afirma textualmente: “Teremos o março mais triste de nossas vidas”.

É o que afirma, também, com outras palavras, o cientista suíço e colaborador da Organização Mundial da Saúde (OMS) Didier Pittet, um dos principais  epidemiologistas da Europa. Junto com o Brasil, ele coloca o México e os Estados Unidos, que representam uma ameaça aos países que, de alguma maneira, já conseguiram uma certa estabilidade. Didier destaca especialmente a conduta do governo brasileiro diante da gravidade da situação, que, segundo ele, deveria ser alvo de um inquérito ou de uma avaliação. O cientista estende a análise ao ex-presidente americano Donald Trump. Um confinamento eficiente, mesmo que de curta duração, é a sugestão do suíço para o atual momento catastrófico que vive o Brasil. Essa é, hoje, a fotografia do país no noticiário internacional no que diz respeito à Covid-19. Destaca-se sempre o distanciamento do governo de uma questão cada vez mais grave e que, só por aqui, já matou mais de 260 mil brasileiros. Mesmo diante desse descalabro, a política para enfrentar a questão segue com uma campanha de vacinação sem vacinas e muitas discussões políticas sobre tudo que se refere à doença. A vida, decididamente, ficou num plano inferior. A vida não conta.