A morte nunca sela um julgamento fatal. O morto é sempre visto com o julgamento da boa intenção. A sua boa intenção e a dos que o amavam – ou mesmo dos que o cercavam. A morte nos aproxima pelo olhar à distância de nossos erros em comum. Ninguém é perfeito, mas a maioria de nós tem a melhor das intenções na maioria das vezes. O mal absoluto é uma exceção dos psicopatas. Bruno Covas teve sempre, ao que parece, a melhor das intenções sendo um mau prefeito. Tentou salvar vidas trancando comércios, fazendo rodízios ineficazes, produzindo isolamentos com transportes cheios, proibindo crianças de estudarem – tudo em nome de um combate equivocado e mal planejado à pandemia. Ouviu pessoas. Especialistas. Maus especialistas – que também no afã de salvar vidas, do alto de suas certezas precárias, não salvaram ninguém e pioraram a vida de todos. Todos – o falecido Bruno Covas e os vivos especialistas – tiveram a melhor das intenções – e a pior das ações. Dentro do que achava que era uma boa gestão – soldar portas de comércio em nome de preservação de vidas, por exemplo – Bruno Covas tentou dar o melhor de si. Mas o melhor de si por vezes não resulta numa boa ação em si mesma. Que ele seja julgado por sua boa intenção. O exercício do bem se mede também pela consciência prática da realidade. E uma realidade pode ser limitada pela cegueira parcial dela. Todos somos parcialmente ou muito cegos para a realidade. Por isso exercer o bem é tantas vezes tão difícil. Por isso é difícil julgar a ação de alguém.

Uma criança criada em meio a assassinos, por exemplo, e tem uma simples ação de compaixão a alguém, tem um ato de heroísmo maior que um milionário gestor que cede um pão a um desempregado. Tudo é questão de proporção, do meio em que se vive e da tentativa de melhoria do meio em que se vive. Esta última é a mais difícil. O meio em que Covas tentou salvar vidas era um meio de desespero cego e orgulho científico – cego pela vaidade. Ele fez o que achou ser o certo. Errou. Mas não foi um mau homem pelo seu erro. Mas seu erro foi fatal para muitos. Covas foi ingênuo em grande medida. Teimou nos erros. Errou conjuntamente com João Doria, que insistiu no erro do isolacionismo cego – não se sabe se por tentativa real de salvar vidas, por cálculo político para se contrapor ao discurso de seu adversário Bolsonaro, ou por vaidade de não querer assumir o seu erro. Talvez tudo isso junto. Tudo isso junto pode motivar políticos e cientistas que até hoje insistem no erro isolacionista de trancar vidas em nome de uma sobrevivência sem liberdade e sem dignidade – uma sobrevivência isolada que ceifa a própria vida na raiz. Que ceifa mais vidas pela miséria – econômica e humana – do que pelo coronavírus.

E aqui não falo apenas metaforicamente. No ano passado, morreram 8 milhões de pessoas de fome, 3 milhões por Covid-19. Destas que morreram de fome, quantas foram mortas por efeito do isolacionismo que piorou a fome? São centenas de milhões que passarão fome por isolacionismo. Serão milhões de mortos invisíveis pela mídia. Tudo indica que Bruno, aparentemente um homem bom, foi um ingênuo, ao contrário de Doria, uma mescla humana de sentidos difusos, um homem que acena ao vazio – literalmente – para povoar sua egolatria. A vaidade de um trabalho bem feito pode servir a um homem que faz um bem comum a todos. Doria trouxe a vacina chinesa que abastece boa parte da vacinação hoje no Brasil. Seu ganho político também pode ser visto como um ganho de muitos. Se sua ação foi motivada apenas por vaidade pessoal, ninguém jamais saberá. Mas sua ação desastrosa isolacionista piorou a vida de milhões. E a vacina salvou a vida de milhões. A equação de suas ações é a um só tempo extremamente negativa e positiva. A equação de seu caráter ninguém saberá ao certo, mas podemos intuir. Temos aqui dois exemplos de pessoas que agiram – para o bem ou para o mal – motivados por ingenuidade e vaidade ambiciosa.

O ingênuo é muitas vezes o ajudante involuntário do mal. Não adianta a intenção de ser bom. É preciso conhecer a realidade para exercer o bem de fato. O ingênuo vota em político corrupto, confia em canalha, permite abusos por sua ingenuidade. Permite ser mal assessorado. A ignorância da realidade promove a ação do mal muitas vezes. A ingenuidade de Covas provocou um certo mal, não pela maldade voluntária de ninguém, mas pela vaidade açodada de especialistas. Não houve responsabilidade de Covas até o momento de sua teimosia em não enxergar a realidade. Que Deus o absolva por sua ingenuidade e teimosia e o receba por sua boa intenção. Doria pode até eventualmente ter feito algum bem – motivado por sua vaidade. Que resultou em outro bem, como a aposta em uma vacina que em alguma medida deu certo. E a aposta monstruosamente errada no isolacionismo que arruinou a vida de milhões.

A vaidade não se desprende necessariamente de um bem, quando adornada de um bom trabalho e conhecimento holístico da realidade. Uma boa pessoa pode ter vaidade de sua boa ação consciente, fundamentada em sua estudada visão da realidade. Mas a ação da vaidade teimosa pode afundar o vaidoso num poço sem fundo de egolatria. Doria acenando para o vazio por vezes parece acenar para este poço sem fundo. A ingenuidade pode ser a inocência dos puros que creem no bom coração do próximo. E acredita que o ser humano sempre é alguém em quem se deve depositar esperança. O niilista – o que em nada nem ninguém acredita – só contribui para o desespero humano. Mas o ingênuo também pode ser aquele que confia no pedófilo, no criminoso, no pseudoespecialista. A ingenuidade se equilibra sempre entre a inocência pura e esperançosa no humano e na burrice que premia o mal. A morte absolveu Covas, o ingênuo. Resta saber em que medida a vida ainda vai premiar ou condenar Doria, o vaidoso.

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