Como tinha de ser, Rogério Caboclo foi afastado no final tarde deste domingo, 6, da presidência da CBF, acusado de assédio sexual a uma funcionária da entidade do futebol brasileiro. Isso criou um problema. Afastado, Caboclo não tem condições de cumprir o que prometeu ao presidente Bolsonaro, de demitir o técnico Tite logo após a partida entre Brasil e Paraguai nesta terça-feira, 8, em Assunção, pelas Eliminatórias da Copa do Mundo. O novo técnico já estava engatado: Renato Gaúcho, de interesse do governo. Como é que vai ficar esse acerto agora? A questão é que Tite sabe bem dessa história e dificilmente continuará no cargo. Na verdade, é um cenário vergonhoso. Já trazer a Copa América para o Brasil chega a ser um insulto num tempo de pandemia cada vez mais grave. A intervenção de um governo no futebol aconteceu, por exemplo, durante a ditadura militar, quando a comissão técnica da Seleção de 1970 teve de acatar as ordens do então presidente Emílio Garrastazu Médici, inclusive na escolha de jogadores. Tentou isso com o então técnico João Saldanha, declaradamente de esquerda e que imediatamente deixou o cargo, dizendo a Médici: “O senhor escala os seus ministros e dos jogadores cuido eu”. O governo convidou então o ex-jogador Dino Sani, que não aceitou. E no final, o escolhido foi Zagalo, que aplaudia o regime. E agora é Bolsonaro que quer Renato Gaúcho no lugar de Tite, já à frente da Seleção para disputar a Copa América. No entanto, as coisas não podem ser bem assim e a Copa América representa um momento histórico para que os jogadores da Seleção Brasileira de Futebol façam um movimento que vai representar a grande maioria da sociedade brasileira nos seus anseios. 

A Seleção deveria se negar a disputar a Copa América, enfiada no poço escuro do Brasil por determinação do presidente da República que tomou a decisão depois de se reunir com o agora ex-presidente da CBF, o sombrio Rogério Caboclo. Tomou essa decisão como se o Brasil estivesse em condições de assumir esse tipo de compromisso que, no fundo, representa mais um deboche. O futebol deveria dar um exemplo de civilidade, negando-se a jogar a Copa América num período em que o país enfrenta uma sina devastadora de doença e morte. Tudo é uma atitude política. E tudo é, também, uma atitude social. Não adianta jogar sob protesto. Não. Isso nada significa. Absolutamente nada. Tem que não jogar. Simplesmente isso. Não jogar, pelo momento crítico que vive este país cada vez mais afundado nas suas contradições e nos seus desmandos de uma gente que não respeita nada e ninguém.

Certo, os que querem a Copa América no Brasil lembram que os campeonatos regionais e o Campeonato Brasileiro estão sendo realizados, mesmo com o país à deriva num oceano de dúvidas e falta de rumos. Essas pessoas estão certas. Está correto. Mas a questão é a seguinte: a exemplo da Copa do Mundo e das Olimpíadas, a Copa América é um evento de celebração. Trata-se de um momento máximo de uma modalidade esportiva. O Brasil está celebrando o que, somando mais de 470 mil mortos pela Covid-19 e com a pandemia se alastrando cada vez mais assustadora? Celebrar o que? A determinação de realizar a Copa América no Brasil representa mais um ato de inteira irresponsabilidade daqueles que pensam que podem tudo. Não podem. Ninguém pode tudo. 

É o primeiro momento nos tempos atuais que vivemos em que surge uma oportunidade de alguém representativo dizer não. E tem que se dizer não. Não pode ser diferente. O jogador Casemiro, do Real Madrid, da Espanha, foi o único a tocar nesse assunto depois do jogo entre o Brasil e o Equador, na sexta-feira, 4, já que os jogadores brasileiros estão em silêncio nos últimos dias, evitando falar nesse ato fruto de uma insensatez sem limite. Capitão da Seleção Brasileira, Casemiro adiantou que os jogadores querem discutir esse assunto, mas no momento oportuno, e que, na verdade, todos sabem do posicionamento da Seleção. Em entrevista ao repórter Eric Faria, da TV Globo, o jogador observou que todos sabem que existe uma hierarquia a ser respeitada, mas neste momento, quem joga na Seleção Brasileira de Futebol tem que se posicionar pelo que ela representa ao país. Os jogos pelas Eliminatórias pertencem à Copa do Mundo. Já a Copa América é um torneio que caiu no Brasil por oportunismo, depois de dispensada pela Argentina e pela Colômbia, devido a tragédias da Covid-19. Casemiro esclareceu que essa questão de não jogar a Copa América não partiu dos chamados “jogadores da Europa”. E assinalou que a posição em relação à Copa América é de todos, incluindo a comissão técnica e particularmente do técnico Tite, que está bem desgostoso com essa situação. Tite tornará pública sua posição e há informações de que entregará o cargo. 

No sábado à noite, o presidente Jair Bolsonaro se reuniu por teleconferência com o Conselho Administrativo da Conmebol. Discutiu-se o clima de protesto dos jogadores brasileiros. Ignorando o que vem acontecendo, Bolsonaro reafirmou que o governo do Brasil está pronto para colaborar a fim de que a Copa América seja realizada aqui. E ponto final. Os capitães das dez equipes que disputarão o torneio negaram-se a participar dessa reunião. Neste final de semana, as equipes da Argentina e do Uruguai manifestam que não desejam participar do evento. Antes do jogo contra o Equador, o então presidente da CBF foi ao vestiário da Seleção Brasileira, em companhia dos ex-jogadores Cafu, Clodoaldo, Juninho Paulista e Gilberto Silva. Desejava – conforme disse – dar uma palavra de incentivo à Seleção, mas só causou um profundo constrangimento entre os jogadores. O ambiente é de turbulência. Os jogadores brasileiros nada têm a celebrar. Têm, sim, que respeitar o país mergulhado em profunda consternação. É um movimento político e social. O momento do país é crítico. Não é de festa.