O Brasil ainda vive os riscos de uma nova onda da pandemia sem ter conseguido sair da anterior, com um percentual baixo da população vacinada, mas o retrato da economia é o oposto de um ano atrás. Nessa época, em 2020, convivíamos com deflação, que pode ser até uma coisa boa do ponto de vista do custo de vida e para as empresas, mas que era reflexo muito da queda da atividade e da demanda, aqui e no exterior. Hoje estamos com a perspectiva de uma expansão do PIB acima de 5%, que poderia repor, com alguma vantagem, a retração do ano passado. Porém, com a inflação superando o teto da meta. Nem falo do acumulado até agora, que sofre influência das variações de 2020, já que no cálculo se tira um índice baixo ou até negativo, para colocar as variações recentes, bem mais elevadas. O problema é que as projeções para o fechamento do ano não param de subir. Já estão em 5,44% para o IPCA.

De um lado, temos a perspectiva desse crescimento maior da atividade, que reflete a resistência da economia diante de todas as dificuldades impostas pela pandemia. Fator que, junto com as boas surpresas das contas públicas, tem ajudado a impulsionar recordes da Bolsa. Aliás, vale observar que a expansão maior da economia, com inflação mais elevada, levam a uma melhora da relação dívida/PIB, sem que tenha ocorrido uma mudança estrutural das finanças públicas. Mas o mercado, focado nos números, tem feito uma avaliação mais favorável do país, o que ajuda até a manter o dólar mais baixo. Só que, por outro lado, a inflação mais alta é como uma nuvem cinzenta no horizonte. Pode exigir maior aperto da política monetária, que se traduz em elevação mais forte da Selic. Em termos práticos, esse movimento pode acabar encarecendo o crédito, desestimulando o consumo a prazo, com reflexos sobre o potencial de avanço da economia.

E a inflação está com pressões em várias frentes. Começou com a demanda externa maior, diante da recuperação da China, depois veio a dos Estados Unidos, a Europa. Agora temos a perspectiva de retomada mais firme também do Brasil. Aumentos de custos, que estavam contidos, podem ser repassados com maior facilidade para o varejo. Tem a indexação. O pacote de pressões ainda conta com o aumento dos preços administrados, de tarifas de transportes aos combustíveis, incluindo o gás, medicamentos, água e tarifas de energia, que agora são a maior preocupação. Na questão da energia podemos ter implicações negativas para a economia de várias formas. Tem o reforço das pressões inflacionárias, tanto pela mudança da bandeira tarifária, como pelo aumento do custo no mercado livre de energia. E esse é um preço estratégico para a economia. Mas pode haver também algum impacto sobre a atividade, já que não se pode descartar apagões pontuais e até algum racionamento, diante do baixo nível dos reservatórios. Não choveu o que tinha que chover na época certa e o que vier agora pode não fazer diferença. O alerta é para oito grandes usinas do Sudeste perto do colapso no final de novembro. Até lá é torcer para que haja eficiência no gerenciamento da crise.

O certo é que a economia está crescendo mais do que se esperava, com números melhores das contas públicas e das contas externas, alavancadas pela demanda e preços maiores no exterior. Mas inflação, juros e crise hídrica são riscos no radar, que exigem atenção, além dos problemas estruturais de sempre, como a precariedade da infraestrutura, que até colabora para essa vulnerabilidade maior na questão da energia. E ainda tem os impactos da pandemia, não só do ponto de vista da saúde, mas também no emprego, no poder de compra, nos desequilíbrios entre oferta e demanda de insumos, que têm atrapalhado até a reação de alguns setores, como indústria e a construção. Tomara que a economia também consiga driblar essas adversidades e confirme as projeções mais favoráveis.