Eis o general Eduardo Pazuello participando da algazarra que o presidente Jair Bolsonaro, em mais um deboche, promoveu no Rio de Janeiro, neste domingo, 23, com centenas de motociclistas, seguido de um discurso inflamado contra o que prega seu próprio ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, que vive falando em ciência, mas só para inglês ver. Andava saltitante o general Pazuello e se negou a atender a imprensa. Afinal, o que estaria fazendo o general ali naquela grande aglomeração? A cúpula do Exército brasileiro não gostou da participação de Pazuello, um general da ativa, naquela manifestação política de campanha eleitoral antecipada. O Exército não gostou nem poderia gostar. Depois de um depoimento repleto de contradições e mentiras na CPI, Pazuello encontrou um tempinho para se divertir num ato declaradamente a favor da Covid-19. Militares graduados acham que Pazuello deve ser pressionado a ir para a reserva. É o lugar mais adequado que lhe cabe bem.

Fontes do Exército observam que os próximos dias serão decisivos para o destino do general. Aliás, o Exército acreditava que Pazuello pediria sua aposentadoria quando aceitou ser ministro da Saúde. Mas o general ficou firme no seu cargo, com uma gestão considerada desastrosa. O problema é que agora, fora do ministério e sendo da ativa, o general intensificou sua participação em atos políticos de Bolsonaro. Não pode. A cúpula do Exército está irritada. Bem irritada com esse comportamento do general. Some-se a isso as investigações que órgãos como o Ministério Público Federal e o Tribunal de Contas vêm fazendo sobre a conduta do general ex-ministro durante a pandemia. O Exército teme que esse comportamento do general acabe prejudicando a imagem que tem junto à população. Pode haver uma associação indevida entre o Exército e o governo. Pazuello começou sua provocação aceitando o cargo de ministro da Saúde, foi parar na CPI da Covid-19 e agora participando de atos políticos que o Exército não admite. O comportamento do general fere o Estatuto dos Militares e o Regulamento Disciplinar do Exército. Mas Pazuello demonstra que não se impressiona com essas coisas. Pensa estar acima do bem e do mal. Faz da vida dele o que bem entende e ninguém tem nada com isso.

O comandante do Exército pode punir o general, se desejar, mas corre o risco de a punição ser vetada pelo presidente Bolsonaro. E aí, como é que fica? Seria uma situação melindrosa, uma saia justa que, certamente, não teria um final feliz. Pazuello não está nem aí. Subiu no palanque de Bolsonaro sem máscara, completamente à vontade. Só que ele é um general da ativa, não é um motoqueiro. Generais já admitem que Pazuello vai mesmo entrar na lista dos que vão para a reserva. Até porque seu comportamento pode passar um péssimo exemplo para os integrantes do Exército, incentivando a politização dos quartéis, o que não é desejado por ninguém que ainda consiga pensar um pouco neste país. O general Santa Cruz, da reserva, que comandava a secretaria de Governo e foi demitido por Bolsonaro, arrisca dizer que tem que se dar um paradeiro nisso.

Um general da ativa não pode se dar a esse papel de participar de atos políticos, invertendo valores de toda ordem. Santa Cruz afirma que esse comportamento de Pazuello significa um impacto que ele considera contundente sobre a ordem estabelecida. Outro general da reserva, Paulo Chagas, observa que a participação de Pazuello em manifestações assim significa uma transgressão disciplinar que merece uma punição exemplar. E se não for punido, o Exército sentirá um certo gosto de desmoralização. Nesse ponto da história surge a figura do fantasma solitário do Planalto Central do Brasil, o vice-presidente Hamilton Mourão, demonstrando estar indignado. Mourão exige uma punição a Pazuello. Não pode ficar só na conversa. Tem que punir e a reserva seria até uma punição mais ou menos honrosa. Então é isso. Mais um capítulo emocionante dos dias brasileiros que transcorrem sempre atormentados e delirantes. Qual é a sua, general?