Em 2020, os resultados econômicos do país foram contaminados pelos efeitos deletérios da pandemia de Covid-19. Mas, diferente de outros setores da economia, o agronegócio brasileiro registrará esse ano um forte crescimento de 6,75% no PIB-renda do setor entre janeiro e julho de 2020, em comparação com o mesmo período de 2019 (dados do CEPEA/CNA).

O agronegócio tem mostrado força principalmente no segmento exportador de produtos agropecuários e alimentares, que em 2020 registra 5,7% de crescimento de embarques até outubro, na comparação com o mesmo período do ano anterior. Isso contribui para manter positivo o saldo da balança comercial brasileira, já que as exportações totais do Brasil recuaram 7,9% no mesmo período, segundo dados do MAPA e da SECEX.

No entanto, se, por um lado, o agronegócio tem ajudado a minimizar os efeitos da crise para a economia brasileira, por outro tem causado apreensão na sociedade em função da alta significativa nos preços dos alimentos verificada a partir do segundo semestre de 2020.  Isso eleva a percepção prática de inflação pela população, sobretudo para as famílias mais pobres, que gastam uma parte significativa de sua renda com alimentação.

O gráfico abaixo mostra que a inflação acumulada medida pelo do IPCA (IBGE) foi de apenas 2,22% de janeiro a outubro de 2020 – índice bem abaixo do centro da meta perseguida pelas autoridades monetárias. Mas o grupo “alimentação e bebidas” registrou crescimento de 9,34% em preços, o maior entre os grupos de produtos que compõem o índice. E o que tem puxado a alta da inflação de alimentos são itens centrais na composição da cesta básica de consumo da população, como arroz, feijão, tomate, batata, leite e derivados e óleos e gorduras.

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A forte alta na renda do agronegócio tem sido motivada tanto pelo crescimento significativo dos preços do setor em reais como também pelo grande aumento da produção, com uma safra recorde de grãos. O contexto de bonança no agro pode parecer contraintuitivo em um ano de crise global, mas tem origem principalmente em três fatores conjunturais:

– A produção de alimentos é uma atividade essencial e, por isso, não teve a oferta afetada por interrupções de produção em função do isolamento social ou mesmo retração da demanda interna;

– As exportações do setor foram altamente incentivadas pela desvalorização do real frente ao dólar, intensificada pelo influxo de capitais ocorrido pela elevação dos riscos a partir do início da pandemia (desvalorização acumulada de quase 40% até outubro de 2020), além da redução da taxa real de juros que ocorreu no país;

– A demanda interna segue firme, impulsionada pelo auxílio emergencial oferecido pelo governo, e maior dispêndio com alimentação dentro do lar por conta da pandemia.

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Dessa forma, houve um típico “choque de demanda” no setor, que impulsionou os preços, os quais não vêm sendo compensados por ações como a redução de tarifas para importação de alimentos, como ocorrido com o arroz, devido aos custos desta operação e da taxa de câmbio desfavorável à importação.

No entanto, ao se avaliar a evolução dos preços ao produtor rural, para várias culturas já se verifica uma tendência de estabilização entre setembro e outubro (dados do Cepea-Esalq-USP), que deve se refletir em preços ao consumidor mais estáveis para próximos meses e queda a partir da entrada dos volumes de produção da próxima safra. Ou seja, a preocupação com relação a preços de produtos agroalimentares ao consumidor final deve se dissipar em um prazo ao longo dos próximos meses.

Importante também ponderar que nas últimas três décadas o agronegócio vem entregando altas taxas de crescimento em produção e produtividade, oferecendo menor custos de alimentos para o consumidor, com evolução de preços reais abaixo dos demais setores da economia brasileira. E o mesmo se observa com relação aos preços agrícolas do mercado internacional.

Esse fenômeno é demonstrado na figura abaixo, na qual se verifica que os preços agrícolas no Brasil apresentaram queda significativa a partir da década de 80, e não se elevaram nem mesmo durante o período que ficou conhecido como “boom das commodities” entre 2008 e 2010.

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Com a manutenção de um baixo patamar de preços internos do agronegócio, algo sustentável devido ao forte crescimento em produção e produtividade, o setor vem contribuindo por décadas com o controle da inflação brasileira, colaborando também com a maior disponibilidade de renda à população.

Uma das evidências deste efeito é a perda de participação do grupo “alimentação” dentro do orçamento das famílias brasileiras, que chegava a 34% do total em 1974/75 e passou para a 18% em 2017/18, segundo dados da última Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE.

Portanto, atribuir ao agronegócio o prejuízo à disponibilidade de renda da população e criar uma visão distorcida e imediatista com base na conjuntura atual de alta momentânea de preços pode soar como uma injustiça ao setor.

Na complicada conjuntura da pandemia, o agronegócio além de contribuir com crescimento em renda e manutenção do saldo positivo na balança comercial brasileira, também tem mantido empregos no interior do país, tendo registrado menor queda de pessoas ocupadas com relação aos outros setores econômicos brasileiros, segundo dados do IBGE. Portanto, é importante que se tenha uma visão mais ampla dos dados econômicos antes de se atribuir um peso excessivo a este setor na queda de disponibilidade de renda dos brasileiros em 2020.

(*) Sobre o autor: Leandro Gilio é economista, Doutor em Economia Aplicada pela Universidade de São Paulo (ESALQ/USP) e pesquisador do Insper Agro Global.

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