Desde que me formei na escola, quando ainda morava na Alemanha, aos 18 anos, sabia que queria ser rabino. Estudei em Londres e em Jerusalém para alcançar meu obje­tivo e ingressei no rabinato da comunidade judaica de Viena, na Áustria, há doze anos. Durante todo esse tempo, nunca tinha presenciado nada parecido com o ataque terrorista do início de novembro, uma amostra triste e brutal da intolerância que insiste em se manter entre nós neste século XXI. Estava no meu apartamento, em frente à Grande Sinagoga e ao Rabinato, onde trabalho diariamente, quando ouvi uma centena de tiros. Era uma noite quente e muita gente estava na rua antes do anunciado segundo lockdown contra o novo coronavírus. Demorei a entender o que estava acontecendo. Afinal, ninguém espera tamanha violência. Fui tomado por uma sensação avassaladora de impotência. Da minha janela, via gente tentando desesperadamente se refugiar em bares e restaurantes, e o terrorista correndo atrás. Dava para perceber que ele estava descontrolado. Seu objetivo era matar o maior número possível de pessoas antes de a polícia chegar. Ao ser abatido, havia deixado quatro mortos e 22 feridos.

Depois daquela noite, apesar de anestesiado pelo choque e pela dor, voltei ao trabalho. Uma coisa parecia ter mudado: em meio às velas e flores depositadas na área do ataque, o clima era de profunda solidariedade, como nunca tinha visto. As pessoas exibiam calma. Talvez o susto diante de algo tão atroz tenha despertado o desejo de agir com delicadeza. Não ficou claro se o alvo do agressor era a comunidade judaica, até porque a sinagoga estava fechada, mas aquilo foi, sem dúvida, um ataque à sociedade civilizada. É inegável que a intolerância esteja aumentando em toda a Europa. Algumas semanas atrás, estava caminhando de manhã com três crianças e um grupo de homens gritou: “Olha, é um porco judeu e seus leitões”. Esse tipo de abuso acontece quase toda semana. Por enquanto, não sofri violência física. Não sei o que aconteceria se tentasse responder. Eu e representantes da comunidade judaica em todo o mundo estamos em alerta devido à ascensão do antissemitismo. Tenho certeza de que, se a sinagoga estivesse aberta, a tragédia teria sido mais extensa.

A Grande Sinagoga já foi alvo de um ataque em 1981, quando dois membros de um grupo palestino tentaram invadir o prédio, matando duas pessoas e ferindo 21. No tiroteio de novembro, as forças de segurança conheciam, mas não deram maior atenção ao atacante, que já havia sido preso por tentar se unir ao Estado Islâmico na Síria. As autoridades não estão levando a ameaça terrorista a sério. Dito isso, acendo um alerta: a sociedade não deve atacar a comunidade muçulmana como um todo. Além de não ser humanamente aceitável, isso pode exacerbar ainda mais o extremismo, como vimos na França. A espiral de ódio e violência é sempre alimentada por dois lados.

Em vez de sucumbir ao medo, precisamos evitar a polarização e fugir das generalizações descabidas, visto que o extremismo não tem nada a ver com a religião. É muito fácil culpar uma comunidade inteira — os judeus sentiram isso na pele. Mas o Islã tem tão pouco controle sobre seus radicais quanto qualquer outra doutrina. A Europa também está tomada por terroristas de extrema direita, que alegam defender valores cristãos europeus, e os cristãos sabem que não é verdade. Temos que compreender que, aos olhos da maioria dos muçulmanos, os terroristas islâmicos não estão agindo em nome de Alá. Enquanto essa visão não prevalecer, é só uma questão de tempo até que outro ataque aconteça. Como espectador da história, garanto que ninguém quer ser testemunha de um capítulo tão horrendo.

Schlomo Hofmeister em depoimento dado a Amanda Péchy

Publicado em VEJA de 18 de novembro de 2020, edição nº 2713

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