O novo coronavírus tirou algumas práticas enraizadas no comportamento da sociedade do lugar. Se antes da pandemia, regimes de home office ou trabalho flexível começavam a ser discutidos em poucas companhias, e com a política de implantação funcionando na base do teste, todo esse conceito mudou de forma rápida. Com os riscos de contágio pelo novo coronavírus, o local de trabalho virou qualquer lugar com acesso a internet, como apontou VEJA em reportagem recente. Como grandes empresas pretendem adotar o conceito de trabalho híbrido (com a semana dividida entre escritório e home-office) no pós-pandemia, essa mudança abre espaço para o crescimento dos coworkings, vislumbram uma nova oportunidade de crescimento para 2021. Para isso, estão investindo em ambientes com áreas verdes, espaços de inovação e em coberturas funcionais, inclusive conquistando espaços em áreas nobres de cidades que estavam com escritórios lotados. Já a expansão do modelo nos próximos anos deve estar mais atrelada a cidades menores e bairros-dormitório.

Com a explosão do trabalho remoto durante a pandemia, grandes empresas mudaram o “mindset” e estão trocando espaços suntuosos (e metros quadrados caríssimos) por ambientes mais colaborativos. A ideia é que funcionários possam dividir até as mesmas mesas no espaço de trabalho. No chamado “novo normal”, tudo será compartilhado. “A palavra-chave deste momento é flexibilidade. É uma demanda que já existia, mas que agora explodiu”, diz Lucas Mendes, CEO da WeWork no Brasil. Outra tendência também tem chamado atenção das empresas deste mercado. Já que no modelo híbrido parte da semana é em regime de home office, os coworkings adotaram a postura de facilitar o acesso a todas as unidades. Assim, nos dias em que o funcionário não for se deslocar ao escritório, pode frequentar outra unidade mais próxima ao lar. Nessa linha, a WeWork lançou um cartão que dá acesso a todos os prédios da empresa no mundo. O modelo ganhou nome de WeWork All Access e serve, sobretudo, para pessoas que estão acostumadas a viajar a trabalho mundo afora.

Em janeiro, a WeWork irá inaugurar sua 34ª unidade no país. Será localizada na avenida Faria Lima, um dos metros quadrados mais caros do país. Mas isso só foi possível graças à vacância gerada no mercado de imóveis comerciais. Com a pandemia, o espaço mais caro é aquele que a empresa não está usando. Como boa parte das equipes migrou para o home office, muitos prédios comerciais perderam vários inquilinos (e fontes de receitas). Alguns coworkings devem tomar esses espaços. “Quando nós chegamos no Brasil, não havia tantos prédios disponíveis em regiões centrais. A avenida Paulista e a Faria Lima estavam dominadas. Por isso, buscamos expandir em outras regiões”, admite Mendes. Nem tudo são flores, no entanto. Com a pandemia, a empresa se viu desafiada e encerrou duas operações no Rio de Janeiro.

Mas um dos espaços encerrados pela multinacional na cidade maravilhosa já tem novo dono. Nos últimos dias, a IWG, detentora das marcas Regus, Spaces e HQ, assinou o contrato para assumir o prédio que abrigava o coworking da rival de mercado no bairro de Ipanema. Assumiu o espaço de 3.500 metros quadrados de “porteira fechada” e espera acomodar cerca de 400 empresas a partir de janeiro. “Até mesmo a tradicional chopeira da WeWork veio junto”, revela Tiago Alves, CEO da IWG no Brasil. Localizado na avenida Visconde de Irajá, será a quinta unidade da bandeira Spaces no Brasil — ao todo, a IWG tem 70 operações no país. Em maio, a companhia, que é listada na bolsa de valores de Londres, levantou 320 milhões de libras (algo em torno de 2 bilhões de reais) em uma emissão secundária de ações. Quer, com isso, iniciar uma consolidação no setor. “A ideia é usar o caixa para fazer aquisição de imóveis e de competidores”, assume.

Segundo ele, os motivos que colocam o mercado em evidência atualmente são os mesmos que há alguns anos. “Assim como entre 2014 e 2017, as empresas estão precisando diminuir custos, mas sem perder produtividade e agilidade”, afirma. “A pandemia colocou uma parte da população trabalhando em casa. Isso foi bom, mas tem o seu lado ruim também, pois coloca em xeque a cultura e a integração entre as equipes no trabalho”. O espaço recém-adquirido no bairro fluminense mostra que áreas residências tem sido um norte para a expansão das empresas do setor. “A nossa estratégia é migrar para cidades secundárias e áreas suburbanas, seguindo o movimento que chamamos de close to home (próximo ao lar, em tradução livre)”. Em 2021, a IWG tem como ambição chegar à marca de 100 unidades no país.

PÉ NA AREIA – Unidade da GoWork, em São Paulo: escritório compartilhado da empresa simula uma praia em meio ao centro paulistano –GoWork/Divulgação

A brasileira GoWork, detentora de 14 operações no país, também vê 2021 como um ano estratégico. Neste ano, a empresa inaugurou dois espaços de escritórios compartilhados. Fernando Bottura, CEO da GoWork, confessa que a pandemia impactou o mercado, mas vê espaço para inaugurar até oito unidades na próxima temporada. “Há uma vacância na área de escritórios. A queda de preço para prédios comerciais está em torno de 20% se comparado ao que era antes da pandemia. Estamos prevendo adquirir imóveis mais baratos nesse momento e repassar isso aos locatários”, diz ele.

Para ganhar a preferência, Bottura afirma que é necessário algo a mais. Por isso, as empresas do setor investem cada vez mais na ambientação dos espaços, com adoção de biofilia e áreas que estimulem a criatividade dos funcionários. Em uma unidade da GoWork, localizada na avenida Paulista, em São Paulo, a cobertura do prédio se transformou literalmente em uma praia, com piscina, areia e guarda-sóis. “Grandes empresas, que têm uma densidade enorme de funcionários, estão fechando contratos com os coworkings. Quem conseguir oferecer andares com ambientes mais colaborativos e que estimulem a criatividade vai se sair melhor”, afirma. O futuro do trabalho promete ser mais flexível e isso deve colocar o setor no prumo novamente. A tão sonhada vacina para Covid-19 é quem ditará a velocidade desse jogo.

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