O Brasil está mais uma vez no meio de uma  disputa pública entre China e Estados Unidos. As trocas de acusações entre representantes dos dois países se intensificaram depois que o Brasil assinou seu apoio à Rede Limpa — no inglês, Clean Network –, um programa americano que tem como principal objetivo limar os equipamentos da empresa chinesa Huawei dos projetos de 5G do mundo. Nesse clima, o embaixador chinês, Yang Wanming, aproveitou uma publicação da embaixada dos EUA em redes sociais, que citava um discurso do subsecretario americano, Keith Krach, para dar uma cutucada. Krach alertou sobre a necessidade de proteger os dados da vigilância “do Partido Comunista Chinês e de outras entidades malignas”.

Wanming chamou o americano de “desavergonhado” e escreveu: “As mentiras já são a figura dos oficiais do departamento do estado do governo dos EUA, que agora com suas próprias ações está ensinando ao mundo inteiro qual é o modelo e a forma da ‘democracia americana’”. O embaixador certamente está se referindo ao fato de que o presidente Donald Trump se recusa a aceitar a derrota imposta pelas urnas, acusando que houve fraude eleitoral, mas sem apresentar provas.

Enquanto o imbróglio eleitoral não se resolve, o jogo sobre a disputa de mercado de 5G no Brasil, neste momento, está cambando a favor dos americanos, com a adesão do Brasil ao Rede Limpa. Apesar de o programa, em seu site, dizer explicitamente que é contra as tecnologias chinesas de 5G, especialmente da Huawei, e que por meio dessas tecnologias o Partido Comunista Chinês rouba dados, não significa que o Brasil já tenha tomado a decisão de banir a Huwaei do 5G. De qualquer forma, mostra que um passo foi dado e um sinal passado. O leilão para a venda de licenças de telefonia de quinta geração está previsto para acontecer somente no próximo ano e, até lá, o Brasil saberá como o presidente eleito Joe Biden tratará o assunto.

O subsecretário americano de Estado, em evento em Brasília, disse que a Huawei é a espinha dorsal do Partido Comunista Chinês para roubar dados pelo mundo. Questionado diretamente se a nova administração faria algo diferente sobre este tema, respondeu prontamente: “Acho que nada. Eu diria que nada. Não tem Democrata ou Republicano neste contexto. Estamos unidos neste tópico”. Talvez Krach tenha escorregado na resposta, admitindo implicitamente que Biden pode assumir. Na terça-feira, o seu chefe, o secretário de Estado, Mike Pompeo, afirmou que Trump fará um segundo mandato.

Em seu discurso, Krach, também falou sobre a entrada do Brasil na OCDE, a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico. Ele disse que o Brasil é “o número 50” no Rede Limpa e entra também para a OCDE “como numero 37”. “Visitei o secretario geral da OCDE e ele disse que não podemos ter aliança enfraquecida”, disse Krach, errando o número de integrantes da OCDE. Se o Brasil for aceito será o 38º membro. Existe ainda uma expectativa de que Biden possa barrar a entrada do país na organização por causa da agenda ambiental.

Mas o 5G não é o único percalço que a China está enfrentando atualmente com o Brasil. O presidente Bolsonaro fez fortes declarações nos últimos dias minando a confiança na vacina chinesa da Sinovac contra o coronavírus, que está sendo produzida em parceria com o Instituto Butantan, de São Paulo. Empresários e especialmente pecuaristas olham com atenção o movimento, temendo que a China possa impor barreiras comerciais contra o Brasil. Neste ano, o país asiático foi o principal destino no mundo das exportações brasileiras, superando com folga os Estados Unidos.

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