“Todos nós vamos morrer um dia, aqui todo mundo vai morrer”, disse o presidente Jair Bolsonaro nesta terça-feira, 10. Para ele, não adianta “fugir disso, fugir da realidade. Tem que deixar de ser um país de maricas”. Mais de uma vez, ele defendeu a abertura das atividades econômicas, o fim do isolamento social e coragem para enfrentar a pandemia. 

Por esse raciocínio, o certo é deixar que as pessoas trabalhem e corram o risco de contrair a Covid-19, pois irão morrer de qualquer jeito. Com isso, parece pensar Bolsonaro, a economia cresce, o desemprego cai e sua popularidade sobe, assegurando-lhe a reeleição. É a negação da ciência e das conquistas da humanidade em torno da vida.

Desde a Revolução Científica, iniciada no século XVI, a medicina evoluiu substancialmente, garantindo a elevação da expectativa de vida. O objetivo foi salvar e prolongar vidas. Essa expectativa mais do que dobrou em todo o mundo. No início da revolução, os indivíduos viviam, em média, 30 anos. Agora, a média mundial é 70 anos. 

A expectativa de vida é bem maior em países ricos e em muitas nações emergentes. No Japão, é 84,6 anos; na França, 82,7 anos; no Reino Unido, 81,3 anos; nos EUA, 78,9 anos; no Brasil, 75,9 anos; na Argentina, 76,7 anos.

A gripe espanhola, que matou entre 50 e 100 milhões de pessoas em todo o mundo, deixou como um de seus principais legados a ideia de que o isolamento social é o principal meio para evitar o espalhamento de pandemias e o colapso dos serviços de saúde. Bolsonaro defende o contrário.

Se o presidente estivesse certo, o contágio da Covid-19 se intensificaria, aumentando exponencialmente o número de mortes. Custa a crer que o detentor do cargo mais relevante do país recuse-se a aceitar uma realidade estabelecida ao longo de séculos e confirmada por incontáveis trabalhos científicos. Pior, forneça uma visão equivocada sobre o enfrentamento da pandemia, o que pode influenciar pessoas menos informadas e, assim, contribuir para elevar os efeitos deletérios da atual crise sanitária.

O presidente defende uma estratégia baseada na exposição em massa da população à doença. Se seu raciocínio valesse, a ciência não deveria ter contribuído para curas nem para a melhoria da expectativa de vida. Teria sido um desperdício criar a disseminar os serviços de UTI, que salvaram muitos milhões da morte certa e prolongaram o ciclo da vida. Afinal, todos iriam morrer.

Embora não o diga, Bolsonaro defende, em última instância, o desprezo pela ciência e, assim, a redução da expectativa de vida dos brasileiros. Lamentável!

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