“O Brasil pode ir para hiperinflação muito rápido se não rolar a dívida satisfatoriamente”, alertou Paulo Guedes, com seu jeito sempre discreto e sutil.

A dívida está subindo e chegará a 100% do PIB no final do ano (mais de 30% de aumento em relação a 2019). Quanto maior a dívida, mais cara ela fica.

A inflação está de volta, o que pressiona o juro e, com ele, o custo da dívida.

O juro de longo prazo está subindo. Para não ter um aumento do custo ainda maior, o governo está trocando dívida de longo prazo por dívida de curto prazo, que é mais barata. Quanto mais curta a dívida, menos flexibilidade o governo tem, e mais tempo e energia gasta para rolá-la. Qualquer soluço causa um tropeção.

O encurtamento da dívida também aumenta o dinheiro em circulação, o que pressiona a inflação, que pressiona o juro (o círculo vicioso: inflação aumenta o juro, que leva ao encurtamento da dívida, que aumenta a inflação). O resultado é aumento da taxa de curto prazo (Selic) e do custo da dívida.

Já a arrecadação caiu por causa da recessão decorrente da pandemia.

Ou seja, a receita caiu, mas a despesa não para de subir. Isso vai criando uma situação que os economistas chamam de dominância fiscal. O governo não consegue pagar suas contas, precisa tomar mais dinheiro emprestado, mas ninguém quer dar por medo do calote. Quando fica difícil tomar dinheiro, o normal é aumentar o juro, mas, no cenário de dominância fiscal, não adianta: quanto mais alto o juro, maior o custo da dívida, maior a despesa, maior o desequilíbrio… e maior a chance do calote. O dinheiro desaparece do mercado.

Em um cenário de dominância fiscal, ou o Estado corta despesas na veia ou implode por falta de dinheiro. Ou então emite moeda sem lastro para pagar suas obrigações (o que se chamava antigamente de “rodar a maquininha”) — e é daí que vem o perigo de recrudescimento da inflação.

Como se sabe, a tal rolagem “satisfatória” não está rolando. Mas, em vez de fazer terrorismo e tentar chantagear o Congresso e a sociedade, Guedes deveria convencer o chefe de que se não cortar despesa vai dar ruim.

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