Um jovem com topete, barba aparada, óculos escuros e cordão de ouro no pescoço dirige um Porsche conversível em alta velocidade. Depois, ele desce do carro, entra no escritório luxuoso, se apresenta como operador do mercado financeiro e faz a irrecusável (pelo menos para muita gente) proposta: que tal ganhar muito dinheiro na bolsa de valores? “Tudo o que você precisa fazer é me imitar”, diz o sujeito. A cena está no vídeo de abertura do site de Felipe Albuquerque, que alega ter dedicado quatro anos da vida estudando “alucinadamente o mercado financeiro”. Por 597 reais, mais parcelas mensais de 127 reais, Felipe traça os caminhos para qualquer um enriquecer com a ajuda de uma das jogadas mais arriscadas e especulativas do mercado financeiro: o day trade. Cada vez mais praticado no Brasil, o day trade é uma operação de compra e venda de ações ou derivativos realizada em um único dia na bolsa de valores. O objetivo é ganhar com a variação do preço no intervalo entre a abertura e o fechamento do mercado. É possível faturar com a estratégia, mas a maioria esmagadora dos adeptos fica no prejuízo.

Com o desemprego nas alturas, tem se tornado sedutora a ideia de ganhar dinheiro em casa, na frente de um computador. O canto da sereia vem de jovens que se autodenominam “traders profissionais”. Eles juram ter enriquecido com esse tipo de operação e oferecem aos interessados a oportunidade de receber seus ensinamentos — desde que, é claro, a pessoa esteja disposta a pagar uma quantia para ter acesso a “conteúdos exclusivos”, que incluem aulas e acompanhamento dos trades em tempo real. Como arma de convencimento, nada de diplomas ou currículo em grandes bancos ou corretoras. A sedução é feita em perfis nas redes sociais, onde se exibem em carros esportivos, iates ou mansões, e sempre com a inevitável lenga-lenga motivacional.

SURIEL PORTS – Para viver de trade: com 1 milhão de seguidores no YouTube e 620 000 no Instagram, ele promete ensinar a “viver de trade” e diz ter formado mais de 50 000 operadores. Seu curso custa 2 297 reais –Reprodução/Facebook

O aumento do número de pessoas que se arriscam no day trade é vertiginoso: de 53 000 em 2013 passou para 400 000 no ano passado. Em 2020, esse contingente dobrou e, segundo a Comissão de Valores Mobiliários, chegou a 845 000 — quase 30% dos 2,8 milhões de pessoas que realizaram pelo menos uma operação na bolsa neste ano.

Um dos influenciadores mais populares é Suriel Ports. Seu canal no YouTube tem 1 milhão de inscritos e 532 vídeos. Um deles intitula-se “O mercado que me fez milionário”. Em outro vídeo, Suriel conversa com um ex-aluno que diz ter embolsado 1 200 reais numa operação que durou onze minutos. Os conteúdos gratuitos direcionam as pessoas para o curso pago, que custa 2 297 reais. Na página de seu curso, no site Hotmart, ele diz ter ajudado mais de 50 000 pessoas a lucrar na bolsa de valores. E explica: “Este é um treinamento intensivo e mentoria on-line para pessoas que desejam viver de bolsa de valores, conquistar a liberdade financeira e ganhar dinheiro sem precisar sair de casa”.

PALITO – Funk no YouTube: Aos 21 anos, e com três anos de experiência em trades, diz ter faturado 1 milhão de reais na bolsa. Para promover os cursos on-line, assumiu o papel de MC e lançou no YouTube um “funk ostentação” –Reprodução/.

Estratégia parecida é adotada por André Nascimento, o “Palito Trader”, sócio da FA Capital, que oferece cursos e até carteira de investimentos. Ele assegura que começou a operar aos 18 anos, ao ser demitido do emprego após o nascimento da segunda filha. Os ganhos, garante, começaram a vir depois de sete meses de perdas, quando começou operando 30 reais por dia. “No começo, achava que o mercado era uma fraude, mas, quando comecei a ter lucros, vi que era possível ganhar dinheiro”, disse a VEJA. Neste ano, desenvolveu o que chama de “estratégia do palito”, que só explica para quem contratar os seus cursos. Aos 21 anos, Palito se considera experiente e apto a ensinar outras pessoas a ganhar na bolsa. Ele diz que, com o apoio de sua equipe de traders, composta de duas pessoas, já embolsou, somente em 2020, 1 milhão de reais — sem contar os cursos. Para convencer potenciais clientes, lançou até um funk no YouTube. Enquanto canta, joga para o alto notas de dinheiro.

Enriquecer com operações de day trade é algo bastante raro. Um estudo feito pelos economistas Fernando Chague e Bruno Giovannetti, da Fundação Getulio Vargas, deu números à realidade: de 98 378 pessoas que começaram a operar por meio dessa modalidade entre 2013 e 2018, somente 127 conseguiram obter um lucro líquido diário acima de 100 reais por mais de 300 pregões. “É um erro muito grande vender a ilusão de que alguém irá, em pouco tempo, tirar o sustento de rendimentos na bolsa de valores”, diz Giovannetti. É fundamental ressaltar que não há, legalmente, nada que impeça alguém de vender cursos on-line para formar “traders vencedores”. Resta aos interessados o bom senso de não arriscar demais ao comprar o intangível.

Publicado em VEJA de 11 de novembro de 2020, edição nº 2712

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