Tem sido comum o presidente Jair Bolsonaro e representantes do governo em geral tentarem minimizar as queimadas e o desmatamento pelo país afora. Na ONU, o presidente chegou a dizer que os incêndios na Amazônia eram provocados por índios e caboclos em terras já devastadas. Mas a percepção do brasileiro é muito diferente da que é expressada pelo presidente. Uma pesquisa realizada a pedido da Confederação Nacional da Indústria (CNI) pelo instituto FSB mostra que as queimadas são apontadas espontaneamente por 47% dos brasileiros como sendo a maior ameaça atual ao meio ambiente. Para quem mora na Amazônia, este percentual sobe para 54%. Em segundo lugar, está o desmatamento com 16%. Nem o aquecimento global ou a poluição chegam perto desses outros dois fatores. O brasileiro também acredita que os índios e ribeirinhos, seguido das ONGs, são os que mais tomam atitudes para preservar a floresta. Na outra ponta, quem aparece mal na foto, pela ordem, são os fazendeiros e pecuaristas (42% de ruim ou péssimo), Congresso Nacional (40%), governos estaduais (36%), governo federal (35%) e empresas (35%).

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O ambientalista Claudio Maretti, que esteve no ICMBio no final do governo Dilma Rousseff e durante o governo Temer e que hoje é vice-presidente mundial de áreas protegidas da UICN (União Internacional pela Conservação da Natureza), acredita que a percepção em torno das queimadas se dá muito pelo fato de que nos últimos dois anos esta foi uma realidade recorrente no país. Mas ele chama a atenção para outros dados importantes da pesquisa como a percepção do brasileiro de que o país precisa aumentar as áreas de preservação, inclusive indígenas, e de que isso será importante para o desenvolvimento econômico. Ao todo, 77% dizem que o Brasil deve destinar mais áreas para a preservação ambiental. Somente 22% dizem que o país já preserva a maior parte do território. Em um ponto, os brasileiros estão divididos em suas opiniões: sobre a atuação internacional na Amazônia. Para 55%, os estrangeiros têm interesse que o Brasil não explore a floresta. Para 45%, o interesse internacional está justificado pela tentativa de preservação da floresta. Mas 65% acreditam que a compra e a exploração de grandes áreas da Amazônia por estrangeiros criam dificuldades para garantia da soberania nacional.

Para a CNI, o dado que mais chamou a atenção foi o de que 95% dos brasileiros acreditam que é possível proteger e desenvolver a Amazônia ao mesmo tempo. Mas 93% afirmam que preservar a Amazônia é fundamental para a economia brasileira. Algo que vai em linha com o discurso de empresários e grandes pecuaristas e agricultores que dizem que a percepção internacional de que a Amazônia está sendo destruída acaba prejudicando os negócios. Grandes investidores internacionais já avisaram que vão tirar seus investimentos em empresas brasileiras se a destruição da Amazônia continuar. Mesmo os acordos comerciais que o Brasil faz parte podem ficar ameaçados. Países da União Europeia já demonstraram sua insatisfação na condução da política ambiental brasileira e até ameaçam não aprovar o acordo com o Mercosul.

O vice-presidente do Brasil e que está à frente do Conselho geral da Amazônia, Hamilton Mourão, disse em entrevista à Veja que está sendo vendida para o restante do mundo e para parcela da sociedade brasileira a ideia de que o governo brasileiro está de braços cruzados. “Vou usar o termo da moda, mandou passar a boiada. Não é isso que está acontecendo”, afirmou ele em referência ao que disse o ministro do meio ambiente, Ricardo Salles, em reunião ministerial defendendo que todos deviam aproveitar a pandemia, enquanto a imprensa não estava focada em outro assunto que não o coronavírus para passar “boiada” em novas regras. Mourão disse que o governo está trabalhando. “Esse é um jogo de gato e rato. Imagina uma área de 5,2 milhões de quilômetros quadrados. Você tem fogo em 100000 quilômetros quadrados dela. É pouco quando você olha para o tamanho da área, mas é muito para aquilo que a gente quer entregar”, disse.

A maior parte dos brasileiros (40%) acredita que o desmatamento, as queimadas e o garimpo ainda vão aumentar, prejudicando a floresta. E a maioria absoluta, em torno de 90%, acredita que os governos federal, estadual e o Congresso Nacional deveriam ser os maiores responsáveis pela preservação da floresta. A maior parte da percepção dos brasileiros sobre a Amazônia vai em direção oposta ao que o governo Bolsonaro vem defendendo. Ele quer abrir a mineração em terras indígenas, transferir os parques nacionais para iniciativa privada, o Ibama anunciou que por falta de recursos iria parar o combate aos incêndios. Em alguns momentos, o governo já falou até mesmo em reduzir as áreas de proteção ambiental. Há poucos meses tentou passar uma medida provisória no Congresso para regularizar terras na Amazônia, que na visão de ambientalistas chancelaria a grilagem. Pela pesquisa da CNI, 54% dos brasileiros acreditam que os proprietários de terras devem ser recompensados por não poderem  explorar seus terrenos. Maretti diz que existe até um fundo no governo com 1,5 bilhão que deveria ser usado para este fim. “Mas não para compensar grileiros”, lembra ele.

Mas o número mais impressionante da pesquisa é o que mostra que 1% discorda que a floresta Amazônica tem grande valor para o Brasil. Os outros 99% concordam. Talvez seja a margem de erro da pesquisa, 3 pontos percentuais para mais ou para menos, ou a precisão estimada em 95%.

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