Tive a honra de participar como observador da eleição que elegeu o presidente Barack Obama. Visitei vários estados e dezenas de universidades negras e não negras americanas. Visitei o comitê de campanha dos republicanos, dos democratas, e a sede do comitê de campanha de Barack entreguei. Conheci, conversei e interagi com negros, brancos e hispânicos.

Assisti ao último debate num telão no auditório da Universidade de Austin, no Texas, e, ao final, registrei a cena histórica e marcante de toda a viagem. Ali, no tradicionalmente segundo maior reduto republicano, toda plateia, de pé, aplaudia e gritava o nome do candidato democrata Barack Obama, enfatizando: “this is the man”. Naquele momento, senti que a eleição estava decidida. Obama havia conseguido capturar os corações, galvanizar as opiniões e transformar a esperança em realidade para os americanos.

Tive a honra também de ser convidado para a cerimônia de posse, e, entre os mais de três milhões de presentes, ver na multidão de negros a expressão de orgulho, alegria e contentamento, enquanto repetiam incessantemente: “this is the man”.

Um misto de esperança e encantamento pairava no ar e o sentimento era de que o país havia se reencontrando e se integrado em um só. Parecia que, definitivamente, com um presidente negro e democrata na Casa Branca, a mudança havia chegado de verdade e definitivamente para os negros na América. E que, a partir daquele momento, estaria assegurado que os negros passariam a ser julgados pelo seu caráter e não pela cor de sua pele, como sonhava e pregava Martin Luther King.

O assassinato do negro George e os demais Floyds demonstrou que os negros estavam certos ao hipotecarem sua esperança no presidente.

Demonstrou, também, que nem um Obama com superpoderes poderia sozinho avançar nesse complexo e sobre-humano desafio que aprisiona, envolve e torna reféns negros e brancos americanos.

O ódio racial contra os negros, sua prática e seu impacto destrutivo em toda e qualquer sociedade somente poderá ser combatido e superado com os esforços e convergência de todas as instituições, a começar por um presidente sensível, interessado, que denuncie, puna, lidere a sociedade, e, se necessário, coloque-se de joelhos junto com ela, em solidariedade e apreço. Sem isso, a missão já nasce fracassada e a nação, derrotada.

Não será Trump, com sua extensa ficha corrida de preconceitos e agressões raciais, que recusa em denunciar o racismo e os racistas e que adjetiva os negros de estúpidos, o melhor companheiro. E, Biden apesar do discurso assertivo e a companhia da vice negra Kamala Harris, não empolga, não entusiasma, não faz ferver o brilho nos olhos dos negros americanos. Sem isso, como acompanhamos até aqui a possibilidade fica pela metade, a energia se perde no caminho.

Ou o destino preparou uma surpresa avassaladora com num provável novo governo democrata, ou os negros, num governo republicano, deverão, recolhidos, frustrados e ignorados, esperar mais quatros anos, ou talvez uma eternidade, para encher os pulmões e gritar ensurdecidamente, de novo: “this is the man”.

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