O Ant Group, aquele grupo chinês que está para fazer o maior IPO da história das bolsas mundiais, gosta de dizer a seus investidores que não é uma fintech, mas uma techfin. Ou seja, muito além dos negócios financeiros, o ramo deles também é o de tecnologia. E, como quase toda grande empresa de tecnologia, os embates com os reguladores são frequentes. O dono da empresa, o famoso bilionário Jack Ma, criador do comércio eletrônico Alibaba que deu origem ao Ant, chegou a fazer um polêmico discurso em Xangai, no mês passado, criticando a regulamentação financeira. “Não podemos regular o futuro com os meios de ontem”, disse. Mas, nesta segunda-feira, 2, faltando apenas três dias para que as ações da formiga (ant, em inglês) estreiem concomitantemente nas bolsas de Xangai e Hong Kong, quatro órgão reguladores da China chamaram o senhor Ma e os dois principais executivos do Ant para uma conversa.

Não se sabia até  esta terça-feira, 3, exatamente qual era o choque de realidade dado pelas autoridades do Banco Popular da China, da Comissão Reguladora de Bancos e Seguros da China, da Comissão Reguladora de Valores Mobiliários da China e da Administração Estatal de Câmbio ao senhor Ma. Mas segundo a Reuters, as autoridades chinesas apresentaram novas exigências de capital mínimo para as operações do Ant. Logo após a reunião, a empresa havia feito um comunicando à imprensa chinesa dizendo que “implementará as opiniões da reunião em profundidade”. E prometeu que seguirão as diretrizes que incluem inovação estável, supervisão e serviço para a economia real, preocupando-se em serviços inclusivos e que promovam o desenvolvimento econômico e a subsistência das pessoas.

O banho de realidade foi duro. Parecia que isso não iria tirar o brilho da abertura de capital do Ant, que já tinha as ações precificadas e deveriam levantar no mínimo 34,4 bilhões de dólares, colocando o grupo com um valor de mercado de 315 bilhões de dólares, acima do que vale o JP Morgan, o maior banco americano. Mas, as bolsas de Xangai e Hong Kong decidiram nesta terça suspender o IPO por tempo indeterminado, frustando os investidores. A demanda era tanta que a expectativa é que o Ant captasse ainda mais do que o preço inicial e se aproximasse dos 40 bilhões de dólares. Só os investidores de varejo que entraram na fila na bolsa de Xangai para comprar os papéis, se pudessem, compraria 3 trilhões de dólares. É um valor 872 vezes maior do que o que está sendo efetivamente ofertado a este tipo de investidor. Com números tão superlativos,  a expectativa é que as ações estreiem na bolsa já se valorizando.

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O IPO colocaria Jack Ma mais uma vez no topo do mundo. Não é a primeira vez que o empresário lança um IPO com valores astronômicos. Em 2014, o Alibaba se lançou no mercado angariando 29,4 bilhões de dólares. Hoje, na lista dos maiores IPOs de todos os tempos, que já inclui o Ant, o Alibaba fica em terceiro. Mas, afinal, qual o segredo do sucesso dos negócios de Ma?

O Ant é uma espécie de referência para qualquer fintech. A própria escolha do nome, formiga, revela o que está por trás de sua estratégia: nenhuma transação ou investimento é muito pequeno – quando somados, eles se tornam significativos. Além disso, eles estão centrados no que pode se chamar do tripé das empresas de tecnologia: experiência do cliente, velocidade de transação mais rápida e menor preço. Algo que no Brasil pode ser visto na estratégia de fintechs como Nubank, C6, Inter, Neon e Stone. Não é por um acaso que a Stone, que abriu seu capital na Nasdaq, já vale hoje cerca de 18 bilhões de dólares, quase 100 bilhões de reais. É mais do que vale o estabelecido banco BTG Pactual na bolsa brasileira.

O nascimento do Ant Group na China foi em em 2014 quando Ma percebeu que só o Alipay, a empresa de pagamentos ligada ao Alibaba e que faz parte da estrutura do Ant, não era suficiente para os planos de crescimento. Ele queria prover um serviço financeiro completo a seus clientes. Hoje, além dos serviços de pagamentos, o grupo oferece gestão de patrimônio, empréstimos, pontuação de crédito e seguro. Dessa forma, mesmo que o número de usuários comece a estagnar, a receita por cliente tende a crescer. Para manter a lealdade de seus usuários, eles oferecem retornos maiores em investimentos, não importa o quanto o consumidor tenha para investir. Também criou uma plataforma de gestão de fortunas e de gestão de ativos para empresas. Na parte de crédito, o Ant faz pontuação de crédito e aconselhamento financeiro. Por meio de big data e inteligência artificial, consegue fazer empréstimos para pequenas e médias empresas que não eram atendidas pelos bancos.

Existem razões para o Ant valer tanto, e uma delas é que ele não compete mais com as instituições financeiras tradicionais. Ele é uma plataforma. E bem sucedida. Tem mais de 1 bilhão de usuários ativos por ano. Até 80% dos clientes usam três serviços e 40% usam todos os cinco, segundo dados da empresa. E por que eles se consideram uma empresa de tecnologia? Porque eles também vendem serviços de plataforma de nuvem e blockchain para outras empresas financeiras. Taxas com serviços de tecnologia responderam por mais de 40%  das receitas da empresa, no ano passado, enquanto os pagamentos foram responsáveis por 36%. Em 2019, o Ant teve um lucro de 2,6 bilhões de dólares. Só no primeiro semestre deste ano já superou o do ano passado inteiro atingindo 3,2 bilhões de dólares.

Mas, com tantos dados circulando pela empresa, e com tanta tecnologia — até envolvendo reconhecimento facial –, as suspeitas de como esse monitoramento chega às mãos das autoridades chineses já foram levantadas. O seu concorrente WeChat enfrenta o banimento nos Estados Unidos e o presidente Donald Trump apresentou justamente a espionagem para tomar sua decisão. Algo que poderá ficar no passado a depender do resultado das eleições americanas desta terça-feira, 3. Talvez por essa questão de Trump que o grupo Ant tenha reduzido algumas de suas ambições de expansão globais, o que incluiria os Estados Unidos. No próprio prospecto, eles listam o risco de instabilidade geopolítica com os Estados Unidos como um fator de risco para os negócios. Apesar da principal fonte de receita, mais de 90% vier das operações na China, o Alipay tem clientes no mundo todo. No Brasil, apenas o Alipay já funciona, mas como suporte para as transações de quem faz compras internacionais pelo Alibaba.

 

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