O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC), anunciou nessa quarta-feira, 28, a manutenção da taxa Selic em 2%, atendendo às expectativas do mercado. Na última reunião, em setembro, o Copom havia deixado as portas abertas para novos estímulos, pequenos e residuais, devido ao cenário de desaceleração econômica que demanda fortes estímulos fiscais, mas afirmou que eles dependeriam da percepção da instituição sobre a trajetória fiscal e a inflação. Como a inflação do país continuou crescendo nas últimas semanas, mas permanece abaixo da meta, e a recuperação da atividade econômica é altamente incerta devido à imprevisibilidade da pandemia, o Comitê decidiu manter a taxa no patamar atual. A alta de preços continua, porém, sendo monitorada de perto e o Comitê citou a palavra “inflação” 15 vezes. “O risco fiscal elevado segue criando uma assimetria altista no balanço de riscos, ou seja, com trajetórias para a inflação acima do projetado no horizonte relevante para a política monetária”, disse o comunicado.

Em uma mudança de tom, o Copom chamou a atenção para a possibilidade de elevação da Selic caso o prêmio de risco do país se eleve com um agravamento ainda maior do desequilíbrio fiscal. Isso pode ocorrer caso haja um prolongamento das políticas fiscais em função da pandemia, como o auxílio emergencial, ou a paralisação do andamento das reformas fiscais. “O Copom avalia que perseverar no processo de reformas e ajustes necessários na economia brasileira é essencial para permitir a recuperação sustentável da economia. O Comitê ressalta, ainda, que questionamentos sobre a continuidade das reformas e alterações de caráter permanente no processo de ajuste das contas públicas podem elevar a taxa de juros estrutural da economia”, diz o comunicado. “É um recado claro de que é preciso equacionar a situação caso o Brasil queira trabalhar com os juros reduzidos”, diz Silvio Campos Neto, sócio da consultoria Tendências.

Apesar das sinalizações do mercado sobre os riscos de se reduzir ainda mais a Selic diante do risco fiscal crescente no país, o Banco Central deixou as portas abertas para novos cortes residuais. “O Copom entende que a conjuntura econômica continua a prescrever estímulo monetário extraordinariamente elevado, mas reconhece que, devido a questões prudenciais e de estabilidade financeira, o espaço remanescente para utilização da política monetária, se houver, deve ser pequeno”, disse o documento. Essa possibilidade se mantém em aberto principalmente devido a descontinuidade do auxílio emergencial que pode desacelerar a recuperação da economia, prevista para o final do ano.

Além disso, o Comitê sinalizou que mantém o uso da ferramenta monetária forward guidance, novidade anunciada na última reunião, de setembro. Trata-se de uma sinalização do Banco Central sobre o que ele espera do comportamento da Selic no futuro. Na reunião encerrada nessa quarta-feira, o órgão sinaliza que não pretende reduzir o estímulo monetário enquanto determinadas condições estiverem satisfatórias. “As expectativas de inflação, assim como as projeções de inflação de seu cenário básico, encontram-se significativamente abaixo da meta de inflação para o horizonte relevante de política monetária; o regime fiscal não foi alterado; e as expectativas de inflação de longo prazo permanecem ancoradas”, diz o documento.

CONJUNTURA ECONÔMICA

A decisão do Comitê também levou em conta os indicadores que mostram a reação da economia do país frente aos estímulos do governo e do Banco Central. O mais recente boletim Focus, divulgado na segunda-feira, 26, mostrou que a mediana para o IPCA subiu de 2,65% na semana anterior para 2,99%. O número está abaixo da meta, de 4% e com margem de 1,5 ponto porcentual para cima e para baixo, mas continuará sendo monitorado de perto pelo Banco Central.

O dólar também reflete o aumento do risco do país. Nessa quarta-feira, 28, o dólar comercial fechou a 5,7599 reais, o maior nível desde maio. A alta refletiu as novas ondas de infecção do novo coronavírus no exterior e fechamentos da economia, mas elas se somam ao já deteriorado quadro fiscal do país.

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