As ações dos bancos na bolsa de valores em São Paulo vinham subindo constantemente no último mês, depois de perdas fortes durante a pandemia. De repente, exatamente no dia em que o banco Santander inaugura a temporada de balanços do terceiro trimestre, com lucro considerado bom e acima das expectativas, com alguns analistas escrevendo que o mercado estaria melhor para os bancos, as ações despencaram. Os papéis do Santander puxaram as perdas caindo quase 5%. Itaú e Bradesco perderam quase 3%, e ainda vão divulgar os seus resultados. No caso do Santander, não teve jeito, o lucro de R$ 3,9 bilhões não foi suficiente para agradar investidores. Eles desconfiaram da redução das provisões para devedores duvidosos, que foi o que ajudou o lucro ser mais forte que o esperado. Eles não gostaram de ver as receitas caindo no comparativo anual e principalmente não ficaram satisfeitos com a redução das margens financeiras. Há um clima de desconfiança no ar.

As margens dos bancos estão sendo afetadas por uma série de fatores. São eles os juros básicos da economia a 2%, que reduzem o ganho dos bancos; o conservadorismo em tempos de pandemia que leva estimula a emprestar em linhas mais seguras como imobiliário e consignado e, portanto, menos rentáveis; a queda de receita com tarifas; e a própria expectativa com os números de inadimplência. Apesar de a inadimplência nos bancos estar em seus níveis históricos mais baixos, eles revelam uma distorção momentânea provocada pela pandemia.

Para evitar que os calotes afetassem os balanços dos bancos, o Banco Central permitiu que o pagamento das dívidas dos clientes fossem jogadas para 180 dias, sem qualquer necessidade de provisionamento ou classificação de calote. Isto significa que os bancos não sabem o real tamanho da encrenca. Eles até se adiantaram fazendo as chamadas provisões de devedores duvidosos nos balanços anteriores, o que afetou diretamente o lucro no período, e agora começam a retirá-las dos balanços.

Talvez os bancos tenham superavaliado o tamanho do calote e este pode ter sido um dos motivos do Santander, por exemplo, ter reduzido agora as despesas com provisões, o que ajudou no seu lucro, segundo um gestor de fundos. Muitos analistas estão otimistas acreditando que o calote não será tão grande quando o imaginado, mas ainda é uma grande incógnita. “Apesar de um trimestre sólido, esperamos volatilidade nos resultados do banco, uma vez que a qualidade dos ativos deve se deteriorar quando os períodos de carência terminarem, o que pode levar a maiores provisões”, disseram os analistas do Goldman Sachs logo cedo. E a análise ainda continha uma observação de que, mesmo assim, os resultados deveriam ser bem recebidos pelo mercado. O que não se confirmou.

O analista especialista em bancos da Omninvest, Carlos Macedo, vem escrevendo há alguns dias sobre o setor bancário e apontando questões interessantes. Além dos juros básicos estarem baixo, o que automaticamente faz com que os bancos ganhem menos dinheiro, há ainda o fator do risco fiscal no Brasil, segundo Macedo. Os bancos são um conduit do risco soberano. “Não se pode ignorar os efeitos dos problemas recentes no refinanciamento da dívida pública e estresse no mercado de LFTs (títulos públicos)”, escreveu Macedo. “Ou seja, em cenários de preocupação com a trajetória fiscal do país, o setor de bancos raramente costuma ser o preferido de investidores”. Mas vale notar que, mesmo com a deterioração do cenário fiscal, os papéis dos bancos ainda estão valorizando em outubro.

Outro ponto relevante destacado por Macedo é a concorrência das fintechs, que ficará evidenciada com a entrada em vigor do Pix, o sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central que entra em vigor em meados de novembro. As fintechs estão muito à frente no cadastro das chaves que as pessoas poderão usar para fazer as operações. O Pix afeta a concorrência de duas formas. Na escolha das pessoas em usar as fintechs, que já passam a impressão de serem mais tecnológicas e que primam por uma melhor experiência ao cliente, mas também porque afetam as receitas dos bancos. O Pix é gratuito enquanto os atuais sistema de TED e DOC costumam ser cobrados dos seus clientes pelos grandes bancos. A Moody’s chegou a estimar que os bancos perderiam cerca de R$ 4 bilhões com receitas de tarifas.

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