A pandemia do novo coronavírus trouxe perdas substanciais para os mais diversos setores da economia mundial, como aéreo, automotivo e de eventos, afetando a força ativa de trabalho, que sofreu com medidas como a suspensão de contratos, redução de jornada e até mesmo demissões. Mas não deve se resumir aos mais jovens. Um estudo elaborado pela pela consultoria americana de recursos humanos Mercer em conjunto com o CFA Institute concluiu que a grave crise econômica e de saúde também trará impactos significativos nas aposentadorias. O Índice Global de Sistemas Previdenciários contempla 39 países, que equivalem a quase dois terços da população mundial, e dá uma dimensão do cenário.

A crescente pressão sobre os recursos públicos, causada por medidas de combate dos efeitos da pandemia, somada ao aumento da expectativa de vida das pessoas, traz mais insegurança aos sistemas previdenciários, de acordo com o estudo. “Inevitavelmente, isso afetará as pensões futuras, o que significa que algumas pessoas terão de trabalhar mais, enquanto outras terão de se contentar com um padrão de vida mais baixo na aposentadoria. É fundamental que os governos reflitam sobre os pontos fortes e fracos de seus sistemas para garantir melhores resultados de longo prazo aos aposentados”, afirma David Knox, sócio sênior da Mercer e principal autor do estudo. Ele aponta ainda que a recessão econômica provocou a redução das contribuições para as aposentadorias, menores retornos de investimento e uma maior dívida governamental na maioria dos países pesquisados.

Apesar da reforma da previdência, que foi promulgada em novembro de 2019, o Brasil caiu três posições na comparação com 2019 e agora ocupa a 26ª colocação, com uma ligeira piora da nota geral, que passou de 55,9 para 54,5. Para se ter uma ideia, a Holanda lidera com 82,6 pontos e a Tailândia apresentou o pior desempenho, com apenas 40,8 pontos. A queda no ranking está relacionada à manutenção de uma nota muito baixa no índice de sustentabilidade. “Os efeitos ainda demoram a ser sentidos e os reflexos da pandemia podem atrasar um pouco esse processo. O quesito sustentabilidade continua a ser a maior deficiência do nosso sistema, ajudando a manter o Brasil no grupo das piores avaliações, com nota de 22,3 nessa categoria”, analisa Felipe Bruno, líder de Previdência da Mercer Brasil. O país que lidera em sustentabilidade é a Dinamarca, com 82,6 pontos.

Outros fatores econômicos de longo prazo ajudam a explicar os resultados da pesquisa, como as taxas de juros, o retorno de investimentos e a confiança das pessoas. Com isso, a provisão de rendas de aposentadorias também mudou. As perdas e restrições limitam os futuros governos de apoiar as populações mais velhas, seja por meio de pensões ou de prestação de serviços básicos, como saúde ou assistência à população idosa.

Além do aumento da dívida pública, que por si só já agrava a situação das aposentadorias, alguns países ainda adotaram medidas que reduziram temporariamente a contribuição dos trabalhadores, em razão da diminuição de seus ganhos. A Austrália, por exemplo, permitiu que indivíduos cuja renda havia caído mais de 20% acessassem até 13 mil dólares (73,3 mil reais) de seus ativos de pensão. O Chile também autorizou que os contribuintes ativos retirassem voluntariamente 10% de seus fundos de pensão individuais, até o teto de 5,6 mil dólares (31,4 mil reais). “É interessante notar que Holanda e Dinamarca, os dois principais sistemas de aposentadoria do Índice Global de Sistemas Previdenciários, não permitiram o acesso antecipado a ativos de pensão, embora esses ativos correspondam a mais de 150% do PIB de cada país”, indicou Knox. Essas medidas certamente vão influenciar os novos levantamentos sobre o assunto, sobretudo na sustentabilidade e na integridade dos sistemas previdenciários. O sentimento de insegurança também chegou a quem, pelo menos na teoria, tinha garantias até o fim da vida.

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