Ambicionava ganhar o Nobel de Economia vinte anos atrás. Muita gente me dizia que o trabalho sobre teoria de leilões a que me dediquei no último meio século merecia ser laureado e amigos da academia sempre me indicavam todos os anos para o prêmio, alimentando as expectativas. Mas, com o passar do tempo, fui perdendo a esperança. Acreditava que meu momento já havia passado. Por isso, às 2 horas da madrugada de 12 de outubro, quando o telefone fixo da minha casa tocou com insistência, pensei se tratar de um trote ou de propaganda eleitoral e tirei o aparelho da tomada. Não tenho celular por achar que, assim, a vida fica mais simples. Então, ligaram para o da minha mulher, Mary, que atendeu, fez cara de espanto e disse: “Bob, é o comitê do Nobel. Você ganhou”. Fui tomado de emoção. Como era tarde, também não estavam conseguindo contatar meu amigo e covencedor do Nobel, Paul Milgrom. Ele sempre desliga os aparelhos telefônicos de sua casa antes de dormir. Por sorte, é meu vizinho e pude bater à sua porta. Toquei várias vezes a campainha, até que ele atendeu o interfone, desconfiado, e contei a novidade ali mesmo. Paul não entendeu de primeira e perguntou: “O quê?”. Repeti. No dia seguinte, o vídeo captado pelas câmeras de segurança que exibia a inusitada cena rodou o mundo.

Comecei a carreira como matemático focado em estatística e, só em 1971, ao tirar um ano sabático, me envolvi com a área econômica. Foi justamente a partir daí que nasceram os projetos de teoria e design de formatos de leilões que me renderam o prêmio. Ao lado de Paul, desenvolvi um modelo de leilão em que todos os itens à venda são oferecidos ao mesmo tempo. Se houver produtos iguais por preços diferentes, o sistema que bolamos garante que ninguém pagará mais por ele. Esse esquema foi adotado nos Estados Unidos pela primeira vez em 1994 e moldou, por exemplo, a compra e venda de licenças da indústria de telecomunicações em todo o mundo, inclusive no Brasil. Dá também para aplicar nossas teorias em negociações do dia a dia, como a compra de um carro, em que, como nos leilões, é vital saber elaborar estratégias e coletar o máximo de informações sobre o que queremos adquirir e quem é o vendedor. Com treino, qualquer um pode se tornar um bom negociador.

Desde que recebi o Nobel, minha vida mudou completamente, tornando-se um pouco caótica. Recebo centenas de e-mails todos os dias de pessoas querendo discutir minhas teorias. Tento responder a todos, apesar de me tomar muito tempo. Meus netos, conectados como todos de sua geração, disseram que estou virando celebridade e tenho realmente me sentido assim. Os holofotes hoje em torno de mim não chegam perto da atenção despertada por outras de minhas várias conquistas acadêmicas. Sei que essa euforia vai passar e o que ficará perene é o conhecimento intelectual acumulado. Minha grande alegria seria saber que meu trabalho foi capaz de perdurar e ser ainda útil por vinte, trinta anos.

Passei muitas horas de minha vida dedicado incansavelmente às teorias e modelos matemáticos. Isso me custou ficar menos com a família. Não me arrependo e continuo estudando sem parar. Não penso em largar tão cedo esta rotina nem minha posição de professor na Universidade de Stanford. Algumas das mensagens mais tocantes que tenho recebido vêm de ex-alunos. Sou professor há 56 anos e já cruzei com inúmeras mentes brilhantes. Paul Milgrom foi meu orientando durante o Ph.D. Outros dois ex-estudantes tiveram a honra de ganhar o Nobel de Economia: o americano Alvin Roth e o finlandês Bengt Holmström. Tenho imenso prazer de encorajar meus aprendizes. Às vezes, um bom empurrão é suficiente para que as pessoas desenvolvam suas melhores habilidades. Se a cerimônia oficial de premiação em Estocolmo acontecer mesmo em 2021, como planejado, vou usar minha parte dos quase 1 milhão de dólares do Nobel e levar toda a minha família à Suécia para assistir de perto a esse momento tão extraordinário.

Robert Wilson em depoimento dado a Julia Braun

Publicado em VEJA de 28 de outubro de 2020, edição nº 2710

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