Como já virou praxe no governo Jair Bolsonaro, as reuniões palacianas estão sempre no centro das maiores confusões envolvendo o presidente da República e os seus ministros. Nesta semana, Bolsonaro entrou em rota de colisão com o seu ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, que de “nobre soldado” e “predestinado” virou “traidor” por causa de uma reunião realizada na terça-feira, dia 20.

No encontro com 24 governadores, técnicos do Ministério da Saúde, representantes do Instituto Butantan e da Fiocruz e dois líderes do governo, Pazuello ainda tentou demonstrar humildade dizendo que os presentes estavam no nível de conversar diretamente com o presidente. Mas, como assunto competia à sua pasta, foi ele o escalado, segundo as suas próprias palavras. O assunto era delicado – a inclusão da vacina Coronavac, que será prouzida pelo Butantan, no Programa Nacional de Imunização (PNI) e a formalização da intenção de adquiri-la quando fosse aprovada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Imunizante este que Bolsonaro queria distância por estar associado ao seu adversário prematuro de 2022, o governador João Doria (PSDB), e por sua origem chinesa.

Em meio a esse clima de conflagração que já vinha se desenhando nas últimas semanas, Pazuello foi elogiado pelos governadores e aclamado como o “pacificador do país” ao longo de toda a reunião, que durou cerca de duas horas e meia. No fim, ainda vazou um áudio de Doria telefonando ao ministro, parabenizando-o pela iniciativa e pedindo-lhe permissão para postar um vídeo. “Amanhã faço as referências que você merece”, diz o governador de São Paulo no áudio.

As menções honrosas na reunião somadas ao vídeo publicado pelo tucano enfureceram Bolsonaro, que no dia seguinte desautorizou o ministro e anunciou que não iria comprar nenhuma vacina chinesa. “Não abro mão da minha autoridade”. Auxiliares tentaram passar a impressão de que ele havia sido pego de surpresa pela atitude de Pazuello. No entanto, o ministro não foi elogiado – e avalizado – só pelos governadores. Representantes do governo Bolsonaro também destacaram a sua coragem e o papel de conciliador, como o líder na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR): “O ministro tem muita coragem de fazer os compromissos com as vacinas que estão em pesquisa, porque, senão, se a gente esperar dar certo para falar, quando der certo, na nossa vez, a produção vai estar muito distante”, afirmou ele, frisando ao final que é “isso o que o presidente pensa também”.

Estava claro ali para todo mundo que as vacinas em discussão eram as do Butantan e da Fiocruz, que, apesar de suas origens internacionais, estão nos estágios mais avançados dos testes e serão produzidas em solo brasileiro. O diretor do Butantan, Dimas Covas, ainda tinha em mãos um frasco do imunizante já pronto, que, segundo ele, irá levar no rótulo a inscrição “Ministério da Saúde-Instituto Butantan”. Alguns governadores, como Ronaldo Caiado (DEM), aliado do presidente, aproveitou o momento para dizer que “era a melhor notícia que recebeu no ano” com o recipiente na mão.

Com o recuo do governo federal no dia seguinte e a postura imprevisível de Bolsonaro, Pazuello saiu de cena e se recolheu, ainda mais depois porque testou positivo para a Covid-19. A alguns interlotutores com quem conversou nesta quarta-feira, dia 22, ele disse que o problema de Bolsonaro é pessoal com Doria. Já os governadores preparam uma resposta ao presidente e tentam manter a negociação da vacina com o Ministério da Saúde. Para isso, farão uma nova reuninão nesta sexta-feira, que também deve dar o que falar.

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