Nos últimos 150 anos, a família real do Catar se tornou uma das mais prósperas do mundo graças sobretudo às riquezas naturais do país. Primeiro, com a extração de pérolas e o comércio marítimo. Depois, com o petróleo e as monumentais reservas de gás natural. No emirado absolutista e hereditário, o poder passa de pai para filho — e a fortuna, obviamente, também. Um dos detentores do trono, o xeque Hamad bin Jassim bin Jaber Al Thani tem patrimônio pessoal estimado em dezenas de bilhões de dólares (o valor exato, dada a falta de informações confiáveis, é impossível de ser calculado) e uma predileção irresistível por mimos luxuosos. Al Thani é dono de Porsches, Ferraris e Lamborghinis, mandou construir, ao custo de 220 milhões de dólares, um dos iates mais cintilantes do mundo, comprou três apartamentos em Nova York que, juntos, valem aproximadamente 100 milhões de dólares e mantém uma frota particular de seis aeronaves, todas bastante conhecidas na aviação comercial. Por motivo desconhecido, Al Thani pôs uma delas à venda por impressionantes 500 milhões de dólares, quinze vezes o lucro líquido da companhia aérea Gol em 2019.

O que a aeronave tem de especial? Trata-se de um Boeing 747-8, modelo de fuselagem alongada adotado largamente em operações para passageiros e de carga. O jato foi entregue à aristocracia do Catar em 2012, mas nos últimos nos oito anos teve apenas 1 069 horas de voo. Na aviação, isso não é nada. Significa ter viajado, em média, apenas duas horas por semana desde que saiu da fábrica da Boeing, enquanto seus equivalentes permanecem nos ares mais de quinze horas por dia, a depender do padrão adotado pela companhia aérea. Ou seja: o avião real praticamente não foi utilizado. Contudo, o fato de ser uma aero­nave gigante com pouco uso não é o que determina o seu valor nababesco. O que conta é o que está dentro.

Durante dois anos, o 747-8 ficou parado em um hangar na Suíça para ser reformado de acordo com os gostos extravagantes de Al Thani. Mais de uma vez, ele mandou refazer toda a decoração por não gostar de detalhes de cores ou de tecidos das poltronas e sofás. A obra se arrastou por muito tempo, e o xeque parece ter perdido a vontade de cruzar os céus com o seu novo brinquedo. Estima-se que, apenas com o projeto de personalização, ele tenha desembolsado 200 milhões de dólares, mas nem isso foi suficiente para convencê-lo a usufruir o avião.

Desde junho, o Boeing de cinema está à venda, mas faltam interessados, ao menos por enquanto. A cabine comporta 89 passageiros (na aviação comercial, o modelo transporta 400 pessoas) e catorze tripulantes. Os decoradores prepararam um lounge de entrada inspirado nos palácios da família, com ornamentos em tons de azul e dourado. Algumas peças, como luminárias e abajures, foram compradas de colecionadores particulares e todas as poltronas são ajustadas eletronicamente. O avião está dividido em vários setores. Na área de trabalho ficam os escritórios e uma sala de reunião com capacidade para 24 convidados. A cozinha prepara pratos internacionais e a suíte máster pode ser transformada em UTI médica. Para a família real, fé e diversão devem voar juntas. O sistema de entretenimento tem onze televisões de até 55 polegadas, mas Al Thani não se esqueceu de mandar construir uma ala reservada para orações.

Não é a primeira vez que a realeza do Catar se desfaz de algumas de suas aeronaves. Em 2018, pôs à venda outro 747-8, e ninguém se interessou. Como dinheiro não é problema, decidiu-se doar o avião para o presidente da Turquia, Recep Erdogan, que o aceitou de bom grado. Parece haver, mesmo que informalmente, uma competição entre bilionários pela aeronave mais luxuosa. O príncipe Alwaleed bin Talal, da Arábia Saudita, é dono de um Airbus A380, o maior jato de passageiros do mundo. O valor de “tabela” do modelo é de 320 milhões de dólares, mas as melhorias — ou excentricidades — do príncipe certamente acrescentaram outras dezenas de milhões ao custo final da aeronave.

Reis, príncipes, a turma toda de sangue azul parece brincar de aviãozinho. No entanto, o modelo mais caro do mundo, ressalve-se, não pertence a nenhuma dinastia, mas é usado pela personalidade mais poderosa do planeta. Segundo estimativas do mercado, o Boeing 747 Air Force One, que serve o presidente dos EUA, está avaliado em 660 milhões de dólares, acima de qualquer outro. Em se tratando de aeronaves, Donald Trump e seus antecessores não perdem nada para os príncipes das Arábias.

Publicado em VEJA de 7 de outubro de 2020, edição nº 2707

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