Firme no seu posto de dirigente praticamente vitalício da Rússia, amparado por um Parlamento moldado a seu favor, dispondo de instrumentos para esmagar a oposição, Vladimir Putin tem um jeito de comandar o país que preserva muitos traços do modo de agir da finada União Soviética — da qual, aliás, não esconde certa nostalgia. “Quem não tem saudade da URSS não tem coração”, declarou, em frase que ficou célebre, acrescentando em seguida: “Quem a quer de volta não tem cérebro”. Na mesma toada, a FSB, sucessora da notória KGB dos filmes de James Bond, também segue utilizando os métodos rústicos do passado, dispensando refinamentos que permitem a concorrentes, como a CIA americana e o MI6 britânico, seguir com suas operações, mas disfarçando melhor a assinatura. Encaixa-se nesses dois contextos a insistência russa, em pleno século XXI, de usar veneno, a mais antiga das armas dissuasivas, para calar quem incomoda. A vítima mais recente é Alexei Navalny, advogado que se transformou na voz da oposição no país, tendo dedicado os últimos dez anos a expor, principalmente, a corrupção sistemática nos altos escalões de Moscou.

Navalny, 44 anos, voava de uma pequena cidade da Sibéria para Moscou quando se sentiu mal. O avião fez um pouso de emergência em Omsk, ainda na Sibéria, e Navalny chegou ao hospital com claros sinais de envenenamento, possivelmente por meio de uma xícara de chá (os agentes russos têm uma queda por chá, além da vodca) que tomou no aeroporto antes de embarcar. Os médicos locais apressaram-se em dizer que nada comprovava a presença de veneno — embora tenham lhe aplicado um antídoto contra substâncias que afetam o sistema nervoso. A mulher de Navalny, Yulia, acionou uma ONG alemã que contratou um avião para transportar o ativista para Berlim. A liberação do paciente demorou dois dias. Quando finalmente pôde ser examinado por médicos alemães, ele foi declarado fora de risco de vida, mas com “fortes indícios” de um veneno no organismo. A chanceler Angela Merkel pediu “uma investigação criteriosa e transparente do crime”. O Kremlin respondeu que sim, fará — assim que tiver prova da presença de veneno. Ou seja, nunca. “Não entendemos por que motivo os colegas alemães têm tanta pressa em usar a palavra veneno. Nenhuma substância foi identificada”, reclamou, em tom de brios feridos, o porta-voz da Presidência, Dmitri Peskov.

Antes de Navalny, outro caso que teve grande repercussão foi o de Sergei Skripal, ex-­agente russo que, em 2018, apareceu desmaiado ao lado da filha no banco de um parque em Salisbury, no Reino Unido, onde moravam. Diagnóstico: novichok, arma química desenvolvida pela União Soviética. Os Skripal sobreviveram, mas uma mulher que achou o frasco de perfume usado para espalhar o veneno na maçaneta da porta da casa do ex-agente acabou morrendo. Conhecida ativista da oposição, Anna Politkovskaia também ingeriu veneno ao tomar uma xícara de chá, em 2004, e também sobreviveu, vindo a ser assassinada no elevador de seu prédio em Moscou, dois anos depois. No mesmo ano de 2006, em Londres, onde estava exilado, o ex-agente Alexander Litvinenko tomou chá misturado com substância radioativa e viria a morrer meses depois. O próprio Navalny, há três anos, teve o olho direito atingido por um produto químico e perdeu parte da visão. “Mortes por envenenamento são lentas e dolorosas”, diz Rick Fawn, especialista em segurança do Leste Europeu da Universidade St Andrews, no Reino Unido. “Esses ataques sinistros parecem meio rústicos, porque sempre deixam rastros. Mas passam uma mensagem poderosa.”

REPETIÇÃO - Navalny (no centro): veneno é arma usual contra opositores –Kirill Kudryavtsev/AFP

Quando não é direcionada a agentes rebeldes e opositores, a truculência russa comparece na forma de seu exército de hackers prontos a interferir nos assuntos externos, sem grande preocupação de apagar as digitais. O governo Putin nega qualquer envolvimento, mas, segundo relatório recente do Senado americano, ciberataques procedentes da Rússia foram identificados ao longo da campanha pela Casa Branca em 2016, por meio de invasão de computadores e de distribuição de fake news, com o intuito de reforçar a posição de Donald Trump (que não esconde certa admiração pelo durão Putin). Da mesma forma, uma comissão britânica concluiu, após meses de investigação, que a Rússia esteve por trás de vários ataques digitais no período que culminou no Brexit (apoiado por Moscou, que via com bons olhos uma União Europeia enfraquecida). A interferência foi ainda detectada nas eleições de 2017 e 2019 para o Parlamento Europeu. Mais tosca parece a ação do serviço secreto russo no Afeganistão, revelada em junho e negada por Moscou, de oferecer pagamento em dinheiro a militantes do talibã para cada soldado americano que matassem no país.

Para o alemão Jack Barsky, ex-­agente da extinta KGB que espionou autoridades americanas durante a Guerra Fria, o DNA dos serviços de Inteligência de Moscou carrega o gene soviético de brutalidade, ousadia e eficiência. “Desde o fim da KGB, a Inteligência russa aperfeiçoou muito sua capacidade de coletar dados e treinar agentes, além de investir na colocação da ciência a serviço da espionagem”, diz Barsky, especialista em tecnologia da informação que desertou para os Estados Unidos em 1988. “O que nunca mudou foi sua habilidade de transformar agentes em máquinas de assassinato e suborno, com o objetivo de intimidar.” Em um hospital de Berlim, Navalny é prova — viva, ainda — de que a Rússia saiu da União Soviética, mas a União Soviética ainda não se descolou totalmente da Rússia.

Publicado em VEJA de 2 de setembro de 2020, edição nº 2702

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